Tem uma cena clássica do filme O Poderoso Chefão em que Michael Corleone diz: "Toda vez que eu penso que saí, eles me puxam de volta."

Pois é. É exatamente isso que a inflação americana está fazendo com o Federal Reserve.

Austan Goolsbee, presidente do Fed de Chicago, subiu no palco da conferência anual da National Association for Business Economics (NABE) nesta terça-feira e basicamente disse o que qualquer pessoa com dois neurônios funcionando já sabia: inflação a 3% não é vitória, é derrota maquiada.

E fez questão de ser direto: "3% não é bom o suficiente — e não é o que prometemos quando o Federal Reserve se comprometeu com a meta de 2%. Estacionar em 3% não é um lugar seguro."

Traduzindo do economês para o português da esquina: o Fed prometeu uma coisa, não entregou, e agora quer que todo mundo finja que tá tudo bem. Goolsbee, pelo menos, teve a decência de não fingir.

O fantasma do "transitório"

Lembra quando lá em 2021-2022 o Fed inteiro repetia como papagaio que a inflação era "transitória"? Powell, Yellen, todo mundo. Pois Goolsbee lembrou — com uma sinceridade rara pra um burocrata — que já foram queimados uma vez por assumir que a inflação era passageira e que não vão cometer o mesmo erro.

"Antecipar muitos cortes de juros não é prudente nessa circunstância", disse ele. "As pessoas dizem que preços são uma de suas preocupações mais urgentes. Vamos prestar atenção."

Olha só. Um membro do Fed dizendo "vamos ouvir o povo". Quase caí da cadeira.

Os números que ninguém quer encarar

O último dado de inflação — o PCE core de dezembro — veio em 3,0%. Subiu 0,2 ponto percentual em relação a novembro. Parte disso é tarifa (que o pessoal de Washington adora chamar de "temporário", como se temporário não durasse anos nesse país). Mas a parte que realmente preocupa é outra: a inflação de serviços.

Serviços não tem nada a ver com tarifa sobre importação chinesa. É aluguel, é saúde, é seguro, é aquele mecânico que cobra o dobro do que cobrava em 2019. E essa inflação de serviços tá teimosa como mula empacada.

Goolsbee fez questão de enfatizar isso. Ele sabe que o mercado quer ouvir que os cortes vêm aí. Mas ele é votante do FOMC este ano e não vai queimar sua credibilidade para agradar trader de futuros.

E o mercado? Fazendo o de sempre: apostando no que quer ouvir

Os futuros de juros, segundo o FedWatch da CME, mostram uma probabilidade de 50/50 para um corte em junho e uns 71% para julho. Ou seja, o mercado tá precificando corte no segundo semestre como se fosse fato consumado.

Depois de três cortes de 0,25% no final de 2025, o pessoal já tava planejando a festa de 2026. Goolsbee basicamente apareceu com um balde de água fria.

E não foi só ele. Christopher Waller, outro membro do Fed que historicamente é mais dovish (favorável a cortes), também adotou um tom mais cauteloso na segunda-feira. Disse que o mercado de trabalho pode estar em melhor forma do que se pensava — o que, traduzindo, significa: menos urgência para cortar juros.

Quando até os caras que querem cortar estão hesitando, presta atenção no sinal.

O que isso significa na prática

Pra quem investe, a mensagem é clara: não conte com juros mais baixos nos EUA tão cedo. E se os juros americanos não caem, o dólar continua forte, o capital continua fluindo pra lá, e mercados emergentes — incluindo o nosso querido Brasil — continuam na pressão.

Nassim Taleb diria que o mercado tem uma obsessão patológica com previsões de corte de juros. Todo mundo quer ser o espertão que antecipou o pivot do Fed. Mas a realidade é que o Fed não tem pressa e, mais importante, não deveria ter.

Inflação é um imposto silencioso sobre os mais pobres. Goolsbee sabe disso. Ele disse que as pessoas estão preocupadas com preços. E pela primeira vez em muito tempo, alguém no Fed parece estar ouvindo.

A pergunta que fica é: você vai montar sua carteira baseado no que o mercado quer que aconteça ou no que o Fed está efetivamente dizendo?

Porque entre a esperança e a realidade, porra, a realidade sempre ganha no longo prazo.