Tem uma frase do Nassim Taleb que deveria estar tatuada na testa de todo CEO do planeta: "Nunca pergunte a opinião de alguém. Pergunte o que ele tem no portfólio."
Greg Abel, o cara que herdou o trono de Warren Buffett na Berkshire Hathaway, parece ter lido o livro. Na quinta-feira, o conglomerado de Omaha revelou que voltou a recomprar suas próprias ações — pela primeira vez desde o segundo trimestre de 2024 — e, separadamente, Abel divulgou que comprou US$ 15 milhões em ações da empresa. Do próprio bolso. O valor equivale ao salário líquido anual dele.
E ele prometeu fazer isso todo ano enquanto for CEO.
O elefante de US$ 373 bilhões na sala
Desde que a Berkshire parou de recomprar ações meados de 2024, os investidores vinham coçando a cabeça — e perdendo a paciência — olhando para aquela montanha de US$ 373,3 bilhões em caixa parada. É uma cifra obscena. Dá pra comprar a Nike, a Starbucks e o McDonald's e ainda sobrar troco pro almoço.
A pergunta que todo mundo fazia era: "Abel vai ter colhões pra mexer nesse dinheiro ou vai ficar sentado em cima dele como um dragão protegendo ouro?"
A resposta veio em duas frentes simultâneas.
Primeiro, a Berkshire começou a recomprar ações Classe A e Classe B na quarta-feira. A política da empresa permite isso quando o CEO — após consultar o chairman do conselho, que continua sendo o próprio Buffett aos 95 anos — acredita que o preço está abaixo do valor intrínseco. Ou seja: Abel olhou pro mercado, olhou pro valor real da Berkshire, ligou pro Warren e disse "tá barato."
"Eu absolutamente conversei com o Warren", disse Abel ao programa Squawk Box da CNBC. "Olhei pro valor, formei minha visão de valor intrínseco e consultei o Warren sobre o valor e o timing."
Segundo, ele colocou a própria pele no jogo. Os US$ 15 milhões elevam sua posição pessoal na Berkshire, que já estava em torno de US$ 164 milhões segundo a FactSet. Não é Buffett — que tem 37,5% das ações Classe A e uns 99,5% do patrimônio pessoal na empresa — mas é um sinal que fala mais alto que qualquer carta aos acionistas.
Por que agora?
As ações da Berkshire caíram 3% no ano e 10% desde a máxima histórica de maio do ano passado. Na semana anterior, a empresa reportou uma queda de quase 30% no lucro operacional do quarto trimestre, puxada pela fraqueza no negócio de seguros. O mercado ficou nervosinho.
Era a deixa perfeita.
Abel explicou que normalmente a empresa não divulgaria o início das recompras. Mas com a transição de liderança — ele assumiu em janeiro, quando Buffett finalmente passou o bastão — sentiu que era importante comunicar aos acionistas. Traduzindo do "corporativês": "Preciso mostrar que não sou só um gerente de manutenção. Estou no comando e tenho convicção."
As ações Classe B subiram 1% no pregão seguinte ao anúncio. Nada espetacular, mas o mercado entendeu o recado.
"Isso é tão Berkshire"
Quando perguntaram ao Abel o que Buffett e o conselho acharam da ideia de reinvestir o salário inteiro em ações da empresa, a resposta dele foi deliciosa:
"Ambos foram muito favoráveis. Disseram: 'Isso é tão Berkshire.'"
E é mesmo. Essa é a cultura que Buffett construiu ao longo de 60 anos: dinheiro na mesa, alinhamento total com o acionista, zero bullshit corporativo. Se o CEO não compra ações da própria empresa, por que diabos você deveria?
Abel também disse que espera ficar no comando por 20 anos. O cara tem 62. Está planejando sair aos 82. Ambição não falta.
Continuidade ou estagnação?
Alguns investidores ficaram decepcionados que Abel não fez movimentos mais ousados logo de cara — uma grande aquisição, uma aposta audaciosa. A carta anual dele no fim de semana foi basicamente: "Vou manter tudo como o Warren fez, pra sempre."
Isso é conservadorismo prudente ou falta de personalidade? Depende da sua lente.
Mas eu diria o seguinte: num mundo cheio de CEOs que falam bonito em conference call enquanto vendem ações por debaixo dos panos, um cara que pega o salário inteiro e enfia de volta na empresa pelo menos merece o benefício da dúvida.
Skin in the game. Simples assim.
A pergunta que fica: com US$ 373 bilhões em caixa e um mercado cada vez mais instável, quanto tempo até Abel fazer a primeira grande tacada que seja genuinamente dele — e não apenas a sombra de Buffett?