"Estamos lidando com isso, não precisam se preocupar."
Essa foi a frase do Secretário de Defesa Pete Hegseth na sexta-feira, num briefing no Pentágono, sobre o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã. Traduzindo do politiquês para o português de gente que paga boleto: "Foda-se, não é problema meu explicar isso pra vocês."
Enquanto isso, do outro lado do mundo, o novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, disse na quinta-feira que o bloqueio do Estreito deve continuar como "ferramenta de pressão contra o inimigo." Primeira declaração pública do cara no cargo, e ele já veio com a mão fechada.
Pra quem não sabe — e deveria — o Estreito de Ormuz é o gargalo por onde passam dezenas de milhões de barris de petróleo por dia, além de fertilizantes, metais e uma cacetada de insumos que fazem o mundo girar. Fecha essa torneira, e o efeito dominó é questão de tempo.
O dominó já está caindo
A C.H. Robinson, uma das maiores operadoras logísticas do planeta, soltou comunicado na sexta avisando que a capacidade está "restrita", a aceitação de cargas está "seletiva" e os custos de combustível estão gerando "volatilidade de preços e condições variáveis de serviço."
Traduzindo: tá uma zona. Ninguém sabe quanto vai custar mandar nada pra lugar nenhum.
Max Kahn, presidente da Coresight Research, foi mais direto com a CNBC: a disrupção na cadeia global de suprimentos já pode estar empurrando o varejo pro limite. E olha que os varejistas americanos passaram os últimos anos aprendendo a ser flexíveis — primeiro com a pandemia, depois com os tarifaços de 2025.
Mas flexibilidade tem limite. Borracha estica até arrebentar.
Supermercado primeiro, roupa depois
Kahn apontou algo que faz todo sentido: os preços no supermercado devem ser os primeiros a subir. Cadeia de alimentos é menos flexível. Não dá pra simplesmente "pausar" a produção de comida e retomar depois como se nada tivesse acontecido. Tomate apodrece. Trigo tem safra. Fertilizante — que passa pelo Ormuz — não aparece do nada.
Já o varejo de vestuário tem mais margem de manobra. Pode segurar produção, esticar estoque, redistribuir. Mas não está ileso: embarques de roupas da Inditex (dona da Zara) e outras varejistas ficaram parados na semana passada quando voos no Oriente Médio foram cancelados. Lembra daquela sua camisa nova que ia chegar na loja? Está num depósito em algum lugar entre Dubai e o caos.
O jogo duplo do varejo
Kahn resumiu bem o dilema dos varejistas: eles vão enfrentar pressão de custos (insumos mais caros) e pressão de demanda (consumidor gastando menos). É o pior dos mundos — tipo estar entre o Coringa e o Duas-Caras ao mesmo tempo.
E ele trouxe o paralelo com 2022-2023: naquela época, o varejo sobreviveu repassando preço ao consumidor. O aumento de preço compensou a queda no volume de vendas. A aposta é que isso se repita agora. Mas tem um detalhe que ninguém fala alto: em 2022, não tinha uma guerra quente envolvendo a maior artéria de petróleo do mundo.
A gasolina mais cara já está corroendo a confiança do consumidor. O CPI de quarta veio dentro do esperado, mas especialistas avisam que o gasto discricionário vai encolher à medida que as pessoas precisam cobrir o custo do combustível. Menos dinheiro sobrando pra besteira. E "besteira", no linguajar do varejo, é tudo que não é comida e necessidade básica.
Quem sobrevive nessa guerra?
Analistas da Wolfe Research já bateram o martelo: varejistas focados em produtos discricionários são os que mais vão sangrar.
Os sobreviventes? Walmart, Kroger, Dollar General, Dollar Tree — o pelotão do preço baixo. Quando o bolso aperta, o consumidor americano faz exatamente o que o brasileiro faz: troca marca, busca promoção, desce de patamar.
A ironia? O crescimento do varejo americano já vinha "so-so" — nas palavras do próprio Kahn. Agora, com a incerteza da guerra se arrastando, a coisa começa a respingar no PIB.
Então quando o Secretário de Defesa diz "não precisam se preocupar", a pergunta que fica é: ele tá falando isso pra quem? Porque o dono de supermercado, o importador de roupa, o caminhoneiro que paga diesel e a dona de casa que olha o preço do arroz — esses já estão preocupados faz tempo.
A guerra pode ser lá. Mas a conta chega aqui.