Tem uma cena clássica em Monty Python onde o cara insiste que "é só um arranhão" enquanto perde os braços e as pernas. É mais ou menos assim que eu leio o resultado da Home Depot no quarto trimestre fiscal de 2025.

A empresa viu suas vendas caírem 4% na comparação anual. O lucro líquido encolheu de US$ 3 bilhões para US$ 2,57 bilhões. As transações nas lojas caíram 1,6%. E o CFO da companhia, Richard McPhail, literalmente disse à CNBC que o consumidor americano está preso num "ambiente imobiliário congelado há três anos".

Mas a ação subiu 2%.

Por quê? Porque a Home Depot bateu as estimativas de Wall Street. Lucro ajustado de US$ 2,72 por ação contra os US$ 2,54 esperados. Receita de US$ 38,2 bilhões versus US$ 38,12 bilhões projetados.

Porra, que festa. Uma empresa que está encolhendo, mas encolheu menos do que os analistas achavam que ia encolher. E isso é motivo pra comemoração. Se você ainda não entendeu como funciona o jogo de expectativas de Wall Street, aí está a lição do dia: o mercado não precifica a realidade — precifica a surpresa relativa à narrativa consensual.

É o equivalente a tirar 4 na prova quando todo mundo apostou que você tiraria 3,5. Parabéns, você ainda reprovou, mas reprovou melhor que o esperado.

O gelo que não derrete

O cenário macro para a Home Depot continua feio. Juros altos nos EUA travaram o mercado imobiliário. Quando ninguém compra nem vende casa, ninguém reforma cozinha, troca piso, nem faz aquele deck dos sonhos no quintal.

McPhail foi direto: além do congelamento imobiliário, há incerteza crescente do consumidor. As pessoas estão preocupadas com acessibilidade da moradia e com perda de emprego. Não é exatamente o perfil de quem vai gastar US$ 15 mil numa reforma.

A empresa demitiu 800 funcionários em janeiro e mandou todo mundo de volta ao escritório cinco dias por semana. Quando uma empresa faz esses dois movimentos juntos, não é sinal de confiança — é sinal de aperto de cinto.

O guidance para o ano fiscal corrente? Crescimento de vendas entre 2,5% e 4,5%, e lucro ajustado por ação variando de estável até alta de 4%. Vendas comparáveis entre zero e 2% de crescimento. Traduzindo do economês: "a gente espera ficar mais ou menos na mesma, talvez melhorar um pouquinho, mas não conta com isso."

A sombra das tarifas

Como se o quadro já não fosse complicado o bastante, tem a questão das tarifas de Trump. Depois que a Suprema Corte derrubou várias das taxas de importação, a administração Trump anunciou uma tarifa geral de 15% sobre importações. A Home Depot está "avaliando" o impacto.

Billy Bastek, VP de merchandising, já admitiu no call de resultados que o aumento no ticket médio de 2,4% no trimestre reflete "alguns aumentos de preço". Ou seja: a inflação de custos está sendo repassada. E se tarifas novas vierem com força, adivinha quem vai pagar? O sujeito que só queria trocar a torneira da pia.

O copo meio cheio (se você apertar os olhos)

Alguma coisa positiva? Sim.

A taxa média de hipoteca de 30 anos caiu para 5,99% — o menor nível desde 2022. Se continuar nessa direção, pode ser o gatilho que descongela o mercado imobiliário. A primavera — a alta temporada de reformas nos EUA — está chegando. E a Home Depot diz que está ganhando participação de mercado, mesmo com o setor andando de lado.

Mas "ganhar market share num mercado em contração" é tipo ser o cara mais alto entre os anões. Tecnicamente verdade, mas não muda o jogo.

A ação fechou a US$ 384,48, com market cap de US$ 382,75 bilhões. Uma empresa que vale quase 400 bilhões de dólares com vendas encolhendo e lucro caindo. Se você é investidor de valor à moda antiga — tipo Benjamin Graham olhando de cima — isso te incomoda.

Se você é o tipo que surfa narrativa e momentum, pode até gostar do "beat" e apostar no descongelamento imobiliário.

A pergunta que fica é simples: você está comprando a realidade de hoje ou a esperança de amanhã? Porque a Home Depot de hoje é uma empresa congelada num mercado congelado, comemorando que o gelo derreteu 0,4% nas vendas comparáveis.

Isso é investimento ou fé?