Você já viu esse filme antes.

Uma empresa com tecnologia "revolucionária", nome difícil de pronunciar, promessas que chegam ao ano 2040, e um acordo via SPAC — aquela estrutura que Wall Street inventou pra levar empresa a mercado sem passar pelo escrutínio chato de um IPO tradicional. Coloca uma pitada de "computação quântica" no título e pronto: os algoritmos das redes sociais já estão trabalhando, os influencers financeiros já estão gravando o Reels, e o varejo já está babando.

A IQM Quantum Computers, empresa finlandesa fundada em 2018, anunciou que vai abrir capital nos Estados Unidos através de um SPAC avaliado em aproximadamente US$ 1,8 bilhão. O veículo em questão é a Transition Capital Corp. E aí, meu amigo, começa a parte interessante.


Primeiro, vamos falar do elefante na sala: o que é um SPAC?

SPAC — Special Purpose Acquisition Company — é basicamente uma casca. Uma empresa de fachada que capta dinheiro na bolsa com a promessa de encontrar uma empresa real pra comprar. É o "cheque em branco" do mercado de capitais.

Nos anos de 2020 e 2021, o mercado de SPACs virou um carnaval. Centenas de empresas foram a público assim, muitas sem receita real, sem produto validado, às vezes sem nem cliente. O resultado? A maioria derreteu feio. Alguns SPACs perderam 70%, 80% do valor depois do merger. A SEC (a CVM americana) começou a apertar o cerco. O hype morreu.

E agora, em 2025, o SPAC voltou. Só que dessa vez com tecnologia quântica. Porque se tem uma coisa que o mercado ama mais do que uma boa história, é uma boa história que ninguém entende direito.


Computação quântica: genial ou hype de laboratório?

Olha, a computação quântica é real. Os fundamentos físicos existem. A pesquisa é séria. Empresas como IBM, Google e startups do mundo todo investem bilhões nisso.

O problema não é a tecnologia. O problema é o timing e o valuation.

A IQM tem contratos com governos europeus, parceria com instituições de pesquisa, e já entregou computadores quânticos reais — diferente de muitas empresas do setor que só entregam apresentações de PowerPoint. Isso é um ponto a favor.

Mas US$ 1,8 bilhão de valuation pra uma empresa que opera num mercado ainda em fase pré-comercial em larga escala? Aqui você precisa fazer a pergunta que Nassim Taleb sempre faz: quem está com skin in the game aqui?

Os fundadores da SPAC que criaram a Transition Capital? Eles ganham de qualquer jeito — é a estrutura do negócio. Se der certo, ótimo. Se não der, eles já embolsaram as taxas e seguiram a vida. O investidor de varejo que comprou animado? Esse fica com o mico.


Não estou dizendo que a IQM é fraude. Estou dizendo: cuidado com o veículo.

Bruce Wayne usava ferramentas sofisticadas. Mas na mão errada, a mesma ferramenta vira arma. O SPAC não é intrinsecamente ruim — mas tem um histórico recente vergonhoso quando o assunto é proteger o investidor de varejo.

Warren Buffett nunca participou de um SPAC na vida. Buffett, que compra empresas todo santo dia. Que tem mais acesso a deals do que qualquer humano vivo. Ele passou. Talvez ele saiba algo que os youtubers de finanças não estão te contando.

A grande questão aqui não é se computação quântica vai mudar o mundo — vai, provavelmente. A questão é: você vai lucrar com isso? Ou vai ser o cara que comprou Netscape em 1999 e ficou esperando a internet "chegar de verdade"?


O que um investidor de verdade deveria fazer?

Primeiro: entender o que está comprando. Não o pitch deck, não o vídeo do YouTube. O modelo de negócio real, as receitas atuais, o burn rate, quem são os clientes pagantes — não só parceiros acadêmicos.

Segundo: entender a estrutura do SPAC específico. Quais são as condições de redemption? Qual o promote dos patrocinadores? Quanta diluição vem pela frente?

Terceiro: ponderar o tamanho da posição. Se você quer exposição a computação quântica, existe algo chamado diversificação. IBM, Honeywell, IonQ (que também abriu capital via SPAC e vem performando de forma mista) — há mais de uma porta de entrada.


Tecnologia do futuro com estrutura financeira do passado duvidoso.

É esse o resumo.

A IQM pode ser legítima. A tecnologia pode ser promissora. Mas o mercado financeiro tem um talento sobrenatural de pegar algo genuinamente bom e transformar num instrumento de destruição de patrimônio pra quem não leu as letras miúdas.

Você vai ser o esperto que entendeu a oportunidade antes de todo mundo — ou vai ser mais um otário que financiou o exit de alguém mais bem informado?

A resposta depende de quanto você realmente sabe sobre o que está comprando.