Tem uma cena em O Poderoso Chefão em que Michael Corleone olha pro cara que acabou de trair e diz: "Não é pessoal, são apenas negócios."

Pois é. Jamie Dimon, o cara mais poderoso de Wall Street, acabou de usar exatamente essa lógica — só que com um verniz corporativo mais fino.

Na segunda-feira, durante uma conferência do JPMorgan em Miami, Dimon falou à CNBC sobre o processo movido por Donald Trump contra o banco, pedindo US$ 5 bilhões em danos por ter tido suas contas encerradas. A resposta do Dimon foi um exercício olímpico de equilibrismo político:

"O caso não tem mérito. Mas eu concordo com eles. Eles têm o direito de estar com raiva. Eu também ficaria com raiva. Por que um banco tem o direito de fazer isso?"

Releia isso. O CEO do maior banco do mundo por valor de mercado diz que o processo não vale nada — e no mesmo fôlego admite que o reclamante tem razão de estar furioso.

Isso, meus amigos, é o que acontece quando o cara mais importante do sistema financeiro global precisa dançar valsa com o presidente dos Estados Unidos.

O que rolou, afinal

Em documentos judiciais recentes, o JPMorgan admitiu que fechou dezenas de contas associadas a Trump nas semanas seguintes ao ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021.

Trump processou Dimon e o JPMorgan em janeiro deste ano como parte de uma ofensiva judicial mais ampla. O presidente — ou suas empresas — também processou o Capital One por debanking, veículos de mídia por suposta difamação e até a Receita Federal americana (IRS) pelo vazamento de suas informações fiscais.

O argumento de Trump é direto: as contas foram fechadas por motivação política. Seus apoiadores chamam isso de discriminação pura e simples.

A desculpa do sistema

Aqui é onde a coisa fica interessante — e onde o Dimon mostra que entende o jogo melhor do que qualquer um.

Segundo ele, os bancos são "forçados" a cortar clientes para cumprir regulações. Reguladores podem punir instituições por manter clientes que representem "risco reputacional" ao banco.

"Nós cortamos pessoas porque isso gera risco legal e regulatório pra gente. É muito mais fácil pro banco dizer: 'Não vou correr esse risco, que ele vá procurar outro banco.'"

Percebe o que ele fez aí? Jogou a culpa nos reguladores. "Não fui eu, foi o sistema." É a versão bancária do "eu só estava cumprindo ordens."

E aqui mora o detalhe que pouca gente comenta: não existe uma lei específica que diga que bancos devem abandonar clientes por risco reputacional. O que existe é um emaranhado de regulações e diretrizes que cria um ambiente onde é mais conveniente descartar o cliente "problemático" do que enfrentar a burocracia regulatória.

Ou seja, o debanking é uma decisão de gestão de risco corporativo disfarçada de compliance. Não é ilegal manter o cliente. É só mais caro e mais chato.

A corda bamba

A situação coloca Dimon numa posição absurdamente delicada.

De um lado, ele precisa defender o banco num processo judicial. Do outro, não pode irritar um presidente que move mercados com um post no Truth Social e que está liderando uma onda desreguladora que pode tornar os bancos significativamente mais lucrativos.

Trump está afrouxando regulações. A indústria financeira está começando a colher os frutos de nomeações pró-mercado. Os bancos podem ficar mais rentáveis e segurar menos capital para perdas.

Dimon morder a mão que está prestes a alimentá-lo seria, no mínimo, estúpido. E Jamie Dimon é muita coisa — mas estúpido não é uma delas.

"Há muitos mal-entendidos aqui. Esperamos que a lei mude e que isso se resolva," disse ele.

Tradução: "Vamos resolver nos bastidores, sem barulho."

O que isso significa pra você

Esse caso é um microcosmo perfeito de como o poder financeiro e o poder político dançam juntos — e de como você, pessoa física, não tem o mesmo poder de barganha.

Se o Trump foi debancado e precisa de um processo de 5 bilhões de dólares pra resolver a parada, imagina o João da padaria que teve a conta encerrada sem explicação? Imagina o pequeno empresário conservador que foi cortado por "risco reputacional"?

O debanking é um problema real. E a ironia é que quem está expondo isso é exatamente a pessoa que parte do establishment mais gostaria de calar.

Dimon sabe que o processo não tem mérito legal. Mas também sabe que o problema político é real. E na América de hoje, política e mercado são a mesma porra de coisa.

A pergunta que fica: se os bancos podem te cortar por "risco reputacional" sem lei nenhuma obrigando, quem decide o que é reputação aceitável?