Tem uma cena clássica no filme "A Grande Aposta" em que Mark Baum — o personagem de Steve Carell — olha ao redor da mesa de um restaurante em Las Vegas e percebe que todo mundo está bêbado de ganância. Strippers com cinco imóveis financiados. Corretores vendendo lixo tóxico com sorriso no rosto. A festa parecia não ter fim.

Pois é. Jamie Dimon tá com a mesma cara do Mark Baum agora.

O dono do cassino tá nervoso

Na segunda-feira, durante o evento anual de atualização para investidores do JPMorgan Chase, Dimon — vestido de preto e com uma mão imobilizada por uma tala (detalhe cinematográfico que nem roteirista inventaria) — soltou o verbo:

"Minha ansiedade tá alta. Não fico tranquilo pelo fato de que os preços dos ativos estão altos. Na verdade, acho que isso aumenta o risco."

Releia essa frase. O CEO do maior banco do planeta por valor de mercado não está dizendo que tá tudo bem. Ele está dizendo o contrário exato do que o consenso quer ouvir.

Enquanto economistas fazem festa com as políticas tributárias e desregulatórias da administração Trump, projetando crescimento gordo pra 2026, Dimon fez o que gente séria faz: pensou no que pode dar errado.

"As pessoas estão ficando confortáveis demais com a ideia de que isso é real — esses preços altos de ativos, esses volumes altos — e que não teremos nenhum problema."

Skin in the game. Taleb sorriu em algum lugar.

O fantasma de 2008 na sala

Quando o veterano analista Mike Mayo perguntou sobre o ambiente atual, Dimon não titubeou: comparou o momento com os três anos que antecederam a crise de 2008.

"Todo mundo ganhando muito dinheiro, as pessoas se alavancando, o céu era o limite."

Porra, isso é forte. Não é um blogueiro de Twitter falando. É o cara que pilota o JPMorgan há duas décadas, que navegou a crise de 2008 comprando Bear Stearns e Washington Mutual nos escombros enquanto outros morriam na praia.

Dimon disse que algumas firmas financeiras estão "fazendo coisas estúpidas" — perseguindo receita de juros através de empréstimos e investimentos cada vez mais arriscados. Não deu nomes. Não precisava.

"Você se sente idiota quando todo mundo tá cunhando dinheiro e tudo parece ótimo… a sensação é realmente boa", disse. "E aí, quando penso em todos os fatores em jogo, respiro fundo e digo: cuidado."

O crédito privado já começou a estalar

E não é como se os sinais fossem apenas teóricos. Na semana passada, a Blue Owl — uma das gigantes do crédito privado — chacoalhou o mercado ao anunciar que precisou vender ativos para satisfazer investidores desesperados pra sacar dinheiro de um dos seus fundos.

O efeito dominó foi imediato: as ações da Apollo, KKR e Blackstone foram arrastadas pra baixo. Observadores começaram a se perguntar: será que o ciclo de crédito já virou?

Troy Rohrbaugh, co-chefe do banco de investimento do JPMorgan, jogou mais lenha: disse que o problema provavelmente não ficaria contido ao crédito privado. Seria "mais amplo."

"Neste momento, parece isolado a um punhado de situações, mas isso pode mudar facilmente — e estamos preparados pra isso."

A surpresa que ninguém espera

Dimon tocou num ponto que é ouro puro pra quem estuda ciclos: a surpresa de um ciclo de crédito nunca vem de onde você está olhando.

"Em 2008, 2009, ninguém esperava que empresas de utilidades e telefonia fossem afetadas. Dessa vez, pode ser software, por causa da IA."

Isso é genial. Enquanto todo mundo debate se a Nvidia vai ou não manter os lucros estratosféricos, o risco real pode estar nos empréstimos que fundos de crédito privado fizeram para empresas de software que a inteligência artificial está tornando obsoletas. Os modelos da Anthropic e OpenAI estão sacudindo setores inteiros, e o crédito que financiou essas empresas pode virar pó.

O S&P 500 segue perto das máximas históricas. A música continua tocando.

E você, tá dançando ou tá perto da porta?

Quando o CEO do JPMorgan — um cara que tem literalmente bilhões em skin in the game — diz que sua ansiedade está alta e compara o cenário com o pré-2008, o mínimo que um investidor inteligente faz é parar de rolar o feed e pensar.

Não significa vender tudo e enfiar dinheiro embaixo do colchão. Significa que talvez — só talvez — a hora de revisar sua alocação, checar a qualidade do crédito na sua carteira e ter um caixa decente seja agora, antes de a festa acabar.

Porque como Dimon mesmo disse: o ciclo vai chegar. A única dúvida é qual confluência de eventos vai detonar a bomba.

Você quer ser o cara que respira fundo e diz "cuidado" — ou o que acorda debaixo dos escombros perguntando "o que aconteceu?"