Tem uma cena clássica em O Lobo de Wall Street em que o Jordan Belfort olha pra câmera e diz: "Eu não vou embora." É mais ou menos isso que o Jensen Huang acabou de fazer com o balanço do quarto trimestre fiscal de 2026 da Nvidia.

Os números? Receita de US$ 68,13 bilhões, alta de 73% na comparação anual. O mercado esperava US$ 66,2 bilhões. Lucro ajustado por ação de US$ 1,62, versus US$ 1,53 das estimativas. Tudo acima. De novo. Pela enésima vez consecutiva.

Mas segura que o melhor vem agora.

O guidance que calou a boca dos ursos

Olha, os US$ 2 bilhões acima do esperado em receita são legais. Bacana. Mas o que realmente importa é que o guidance para o trimestre atual veio US$ 5 bilhões acima do que os analistas projetavam. Cinco. Bilhões. De dólares. A mais. Do que a galera de terno de Wall Street, com seus modelos em Excel de 47 abas, conseguiu prever.

E detalhe: os analistas já tinham revisado pra cima as estimativas depois que os hyperscalers (Microsoft, Amazon, Google, Meta) divulgaram seus orçamentos absurdos de capex para o ano. Ou seja, a turma tentou corrigir o modelo. Só não corrigiu o suficiente.

A CFO Colette Kress ainda jogou a cereja no bolo: disse que a Nvidia espera crescimento sequencial de receita ao longo de todo 2026, superando a oportunidade de receita de US$ 500 bilhões que o Jensen tinha mencionado no outono para os chips das gerações Blackwell e Rubin.

Pra quem está perdido no economês: "crescimento sequencial" significa que cada trimestre será maior que o anterior. Não é só "ah, cresceu comparado ao ano passado". É trimestre após trimestre escalando. Isso é raro. Isso é monstruoso.

A questão das margens (e por que o Jensen não está preocupado)

Todo mundo queria saber: com os custos de memória subindo feito foguete, as margens brutas da Nvidia — na faixa dos 75% — vão aguentar?

A resposta do Huang foi elegante na forma e brutal no conteúdo: a melhor alavanca que a Nvidia tem é entregar saltos geracionais de performance. Traduzindo do Jensen-ês para o português de boteco: "Se nosso chip continua sendo o melhor do mercado e não tem substituto à altura, a gente repassa o custo e o cliente paga sorrindo."

É a lógica do Taleb aplicada ao hardware: quando você tem o monopólio prático de uma tecnologia essencial, você tem pricing power. Simples assim.

A história dos chips velhos que ninguém joga fora

Agora, uma pepita de ouro que passou batida: a Kress mencionou que até os chips Ampere, de seis anos atrás, estão esgotados na nuvem. Hopper? Esgotado. Ampere? Esgotado.

Por que isso importa? Lembra quando a galera caiu matando nos hyperscalers por estenderem os ciclos de depreciação dos chips? Chamaram de "engenharia financeira". O Wall Street Journal fez matéria. A CNBC fez matéria. Foi aquele circo de sempre.

Pois bem. Se chips de seis anos ainda estão em operação e com demanda, talvez — só talvez — estender a depreciação não fosse malandragem contábil, mas simplesmente reflexo da realidade. Os chips duram. Geram receita. Continuam úteis.

Isso dá confiança para os compradores — tanto os gigantes como Microsoft e Amazon, quanto os neoclouds como CoreWeave — de que o hardware comprado hoje vai gerar retorno por anos. E quando o comprador tem confiança, ele compra mais. E quando ele compra mais...

Bom, você já sabe quem ganha.

E a ação?

As ações caíram uns míseros 50 centavos no after-market, pra US$ 195,35. Tinham batido US$ 200 logo após os números. Aqueles movimentos insanos de +15% pós-balanço dos primeiros dias do boom de IA já ficaram pra trás. A Nvidia virou uma empresa tão grande que até resultado espetacular já está parcialmente no preço.

Mas não confunda ação de preço de curto prazo com fundamento. O fundamento aqui é claro como água: a demanda por infraestrutura de IA não está desacelerando. Está acelerando.

Agora, a pergunta que fica: se com tudo isso a ação mal se mexeu, quanto mais a Nvidia precisa entregar pra satisfazer esse mercado? Ou será que chegou a hora de parar de esperar o pullback perfeito e aceitar que às vezes o trem não volta pra estação?