Existe uma cena no filme Matrix em que o Morpheus olha pro Neo e diz: "Existe uma diferença entre conhecer o caminho e trilhar o caminho."

No mercado financeiro, a maioria dos analistas conhece o caminho. Fala bonito sobre inteligência artificial, revolução tecnológica, "paradigm shift". Mas quando a Nvidia publica o balanço trimestral e os números vêm fortes, esses mesmos caras correm pra dizer que "já sabiam". Porra, se já sabiam, por que passaram as últimas semanas alimentando pânico sobre desaceleração da IA?

O que aconteceu de fato

A Nvidia soltou seus resultados e, mais uma vez, calou a boca de quem estava vendendo narrativa de fim do ciclo. Os números vieram robustos o suficiente para que o mercado asiático de tecnologia acordasse com tesão na manhã seguinte.

Ações de semicondutores na Coreia do Sul, Taiwan e Japão subiram em bloco. SK Hynix, TSMC, Tokyo Electron — todo mundo pegou carona. O efeito dominó foi clássico: a Nvidia valida a tese da IA, e a cadeia de suprimentos asiática que fabrica os chips, as memórias e os equipamentos de litografia sorri de orelha a orelha.

É o famoso "quando a Nvidia espirra, a Ásia inteira pega o resfriado — ou a euforia."

O medo que nunca foi embora

Vamos ser honestos: o medo de uma desaceleração nos investimentos em IA não sumiu. Ele só foi colocado no banco de trás por mais um trimestre.

As big techs americanas — Microsoft, Meta, Google, Amazon — continuam torrando bilhões em infraestrutura de data center. Mas a pergunta que ninguém quer responder é: quando esse investimento vai se traduzir em receita recorrente proporcional?

Isso me lembra o que o Charlie Munger (descanse em paz, velho sábio) sempre martelava: "O dinheiro grande não está na compra ou na venda, mas na espera." O problema é que o mercado não sabe esperar. Ele quer resultado trimestral, guidance bonito e CEO sorridente na call de earnings.

A Nvidia entrega isso. Por enquanto.

O circo dos "especialistas em IA"

O que me dá nos nervos é a quantidade de guru de LinkedIn que virou "especialista em semicondutores" de uma hora pra outra. O cara que há dois anos vendia curso de dropshipping agora posta gráfico de wafer de silício como se entendesse a diferença entre um chip H100 e um pacote de bolacha.

O mercado de IA é real. A revolução é real. Mas a quantidade de ruído em volta dela é ensurdecedora.

Nassim Taleb diria que a maioria dessas pessoas não tem skin in the game. Falam de Nvidia sem ter uma ação sequer no portfólio. Opinam sobre o futuro dos semicondutores sem entender que a TSMC opera com margens que fariam qualquer empresa brasileira chorar de inveja. É fácil ser analista quando o risco é zero e o ego é infinito.

O que isso significa pro investidor de verdade

Se você tem exposição a tech asiática — direta ou via ETFs — os resultados da Nvidia são um alívio temporário. E temporário é a palavra-chave aqui.

O rally de um dia, de uma semana, não muda a equação fundamental: a tese de IA precisa continuar sendo alimentada por demanda real, não só por FOMO corporativo. O dia em que uma big tech grande pisar no freio dos investimentos em data center, o castelo de cartas vai balançar.

Isso não significa que você deva vender tudo e correr pro colchão. Significa que você precisa ter clareza sobre por que está posicionado e qual é o seu horizonte. Quem comprou TSMC pensando em cinco anos dorme tranquilo. Quem comprou na segunda de manhã por causa de uma manchete do CNBC talvez não devesse.

A pergunta que fica

A Nvidia segue sendo a empresa mais importante do ciclo tecnológico atual. Isso é inegável. Mas aqui vai a reflexão que ninguém no seu feed vai te fazer:

Você está investindo na revolução da IA porque entende a tese — ou porque todo mundo está investindo e você tem medo de ficar de fora?

Porque entre essas duas motivações existe um abismo. E é nesse abismo que o mercado costuma engolir gente.