Imagina o seguinte filme: seu pai, um investidor imobiliário devoto, cristão raiz, passa décadas construindo patrimônio. Antes de morrer, ele coloca US$ 21 milhões num fundo filantrópico pra garantir que a grana vá para causas que ele acredita. Você herda a missão de cuidar disso. E aí, do nada, a organização que administra o fundo simplesmente desliga o telefone na sua cara e some com o acesso à conta.
Parece roteiro de Ozark, mas é a vida real de Philip Peterson, 63 anos, morador do Kansas.
O circo dos Donor-Advised Funds
Pra quem não conhece, Donor-Advised Funds (DAFs) são a nova febre da filantropia americana. Funciona assim: você joga dinheiro, ações ou outros ativos num fundo. Ganha a dedução fiscal na hora. Depois, "recomenda" pra onde a grana vai — qual ONG, qual igreja, qual causa.
Em 2024, americanos despejaram quase US$ 90 bilhões nesses fundos. O total acumulado? US$ 326 bilhões parados lá dentro.
A palavra-chave que o marketing bonito esconde? "Recomenda."
Porque legalmente, quando você deposita no DAF, a grana não é mais sua. Você "recomenda" onde o dinheiro vai. Mas quem manda de verdade é a organização que administra — o chamado "sponsor". E se o sponsor resolver ignorar sua recomendação? Porra, você não tem quase nenhum recurso legal.
Como disse Ray Madoff, professora de direito tributário do Boston College: "Vendem pro público como se fosse sua conta, onde você decide tudo e mantém controle total. Mas se você não abrir mão do domínio e controle, não ganha o benefício fiscal. Existe um abismo entre as regras legais e o que as pessoas entendem."
Abismo. Essa é a palavra certa.
A história de Peterson — quando o "parceiro" vira carcereiro
Gordon Peterson, pai de Philip, criou o DAF em 2005 junto à WaterStone, uma organização cristã sem fins lucrativos de Colorado Springs (fundada como Christian Community Foundation). Quando Gordon morreu em 2019, Philip assumiu o papel de conselheiro do fundo.
Tudo ia bem até que, no início de 2024, o CEO da WaterStone, Ken Harrison, teria comunicado a Peterson que a organização pretendia manter o principal do fundo intocado para sempre, distribuindo apenas os rendimentos dos investimentos. Traduzindo do economês: em vez dos US$ 2,3 a US$ 2,5 milhões que a família costumava doar anualmente, a WaterStone queria apertar a torneira.
Peterson não concordou. Pediu pra transferir o DAF pra outra instituição.
A resposta? Segundo o processo, Harrison disse pra ele nunca mais entrar em contato e encerrou a videoconferência no Zoom.
Desde então, Peterson alega que não tem acesso a nenhuma informação sobre o fundo — nem saldo, nem posição dos investimentos, nem nada. O último dado que ele viu foi do final de 2023, quando o fundo tinha US$ 21 milhões.
O processo foi aberto em janeiro na Justiça Federal do Colorado.
A WaterStone, por sua vez, declarou que está "respeitando os desejos do pai falecido" de Peterson. Conveniente, não? O cara morreu e agora a organização interpreta as vontades dele como bem entende.
A armadilha que ninguém conta
Isso aqui não é caso isolado. É um defeito estrutural dos DAFs que quase ninguém discute.
Diferente de fundações privadas, DAFs não são obrigados a distribuir nada em nenhum prazo. Críticos já chamam isso de "veículo de acumulação de riqueza disfarçado de filantropia" — e não estão errados.
O cara ganha a dedução fiscal no dia 1. O dinheiro pode ficar parado pra sempre. E o doador, que teoricamente montou aquilo pra fazer o bem, pode ser simplesmente excluído da conversa.
Philip Peterson disse à CNBC que seu pai jamais teria criado o DAF se soubesse dos riscos.
Skin in the game ao contrário: o cara colocou a pele, o couro e até os ossos — e agora não tem nem a chave da porta.
Se você é investidor, empreendedor ou alguém que pensa em filantropia estruturada, grave isso: nunca confunda benefício fiscal com controle. São duas coisas completamente diferentes. E no dia que elas se separarem, quem vai ficar com a conta na mão é você — não a instituição de terno e sorriso bonito que te vendeu o sonho.
US$ 21 milhões trancados atrás de uma porta, e o dono da chave decidiu que não vai abrir.
Seu pai teria concordado com isso, WaterStone?