Tem uma cena no Godfather — a clássica, a de 1972 — em que Don Corleone entrega o poder ao Michael e diz, mais ou menos: "Eu fiz o meu tempo." A câmera não mostra fogos de artifício. Mostra um velho cansado num jardim.

Warren Buffett saiu assim. Quieto. Mas o último balanço do seu reinado? Esse gritou.

Os números que ninguém quis colocar em manchete grande

A Berkshire Hathaway reportou no sábado os resultados do quarto trimestre de 2025 — o último com Buffett sentado na cadeira de CEO. Lucro operacional: US$ 10,2 bilhões. Parece muito, né? Pois é quase 30% menos que os US$ 14,56 bilhões do mesmo período do ano anterior.

Traduzindo do economês pra linguagem de gente: a máquina que o Oráculo de Omaha construiu ao longo de seis décadas simplesmente rendeu muito menos. E a culpa principal? Seguros — o coração pulsante da Berkshire desde sempre.

O lucro de underwriting de seguros — que é basicamente o dinheiro que sobra depois de pagar sinistros — caiu 54%. De US$ 3,41 bilhões pra míseros US$ 1,56 bilhão. A receita de investimentos do setor de seguros também levou uma paulada de quase 25%, saindo de US$ 4,08 bilhões pra US$ 3,1 bilhões.

Porra, isso é uma cratera.

O ano cheio também não salvou

Se você tá pensando "ah, mas um trimestre ruim acontece com qualquer um" — tudo bem, vamos olhar o ano cheio. O lucro operacional de 2025 ficou em US$ 44,49 bilhões, contra US$ 47,44 bilhões em 2024. Queda de quase 7%.

O lucro total — aquele que inclui ganhos e perdas do mercado de ações — despencou de US$ 89 bilhões pra US$ 66,97 bilhões. Uma queda de 25%. E sim, a Berkshire sempre avisa que essa linha é volátil e que investidor inteligente não deveria ligar muito pra ela no curto prazo. Concordo. Mas US$ 22 bilhões a menos é US$ 22 bilhões a menos, não importa o disclaimer bonitinho no press release.

Aliás, escondido ali no meio dos números, uma impairment de US$ 4,5 bilhões em Kraft Heinz e Occidental Petroleum. A aposta no ketchup e no petróleo não tá exatamente pagando dividendos de orgulho.

A montanha de dinheiro que ninguém usa

Aqui é onde a coisa fica filosófica — ou irritante, dependendo do seu ponto de vista.

A Berkshire não recomprou uma única ação no trimestre. Zero. Nada. O caixa recuou de US$ 381,6 bilhões (recorde) pra US$ 373,3 bilhões. Ou seja, diminuiu só porque o negócio respirou, não porque houve alguma grande alocação de capital.

São trezentos e setenta e três bilhões de dólares parados. Isso é mais que o PIB de países inteiros. É mais que o mercado de capitalização de 95% das empresas do S&P 500.

Buffett sempre disse que só compraria quando visse algo a preço justo. Mas em algum momento, acumular caixa deixa de ser prudência e vira paralisia. O cara que escreveu o manual de alocação de capital mais brilhante da história simplesmente... parou de alocar.

Charlie Munger — Deus o tenha — provavelmente teria alguma piada seca sobre isso.

Greg Abel: o herdeiro do trono sem a coroa mágica

Greg Abel assumiu em janeiro de 2026 e já mandou sua primeira carta anual aos acionistas. Prometeu manter a cultura de "força financeira e disciplina de capital" que Buffett construiu.

Bonito no papel. Mas aqui vai a verdade nua: ninguém compra Berkshire por causa do Greg Abel. Compra — ou comprava — por causa do Buffett. A classe A subiu só 10% em 2025, enquanto o S&P 500 avançou 16,4%.

Para uma empresa que desde 1965 entregou 19,7% ao ano de retorno composto — quase o dobro do S&P — e acumulou mais de 6.000.000% de ganho total (sim, seis milhões por cento), ficar atrás do índice no último ano do fundador é, no mínimo, simbólico.

O que isso significa pra você?

Significa que até os deuses do mercado sangram. Que nenhuma fortaleza é eterna. Que transições de poder — seja na Berkshire, numa família ou num país — são momentos de fragilidade, não de celebração prematura.

E significa, acima de tudo, que você deveria parar de idolatrar qualquer figura e começar a entender os números por trás do mito. Porque os números do Q4 de Buffett? Não mentem.

A pergunta que fica: se o maior investidor de todos os tempos não soube o que fazer com US$ 373 bilhões, o que te faz pensar que o guru do Instagram sabe o que fazer com os seus R$ 5 mil?