Tem um ditado velho no mercado que o pessoal de assessoria de investimentos adora ignorar: "Nunca tente pegar uma faca caindo."
A Olaplex (OLPX) não é uma faca caindo. É um facão de açougueiro despencando de um prédio de 30 andares. E ainda tem gente olhando pra cima, de mão estendida, achando que vai agarrar "a oportunidade".
O circo do IPO
Vamos rebobinar a fita. Final de 2021. O mundo ainda estava bêbado de estímulo fiscal, juros zero e a ilusão de que qualquer empresa com um bom Instagram merecia abrir capital.
A Olaplex — marca de cuidados capilares que usa uma tecnologia de "reconstrução de ligações" no cabelo — estreou na Nasdaq a $25 por ação. Poucos meses depois, bateu a máxima histórica de $29,41. Os investidores estavam eufóricos. Era pra ser a próxima grande coisa no setor de beleza premium.
Spoiler: não foi.
Hoje, as ações são negociadas abaixo de $1,50. Isso mesmo. Queda de quase 95%. Enquanto isso, o S&P 500 subiu mais de 50% no mesmo período. Se você colocou dinheiro na Olaplex no IPO e segurou até agora, parabéns: você transformou cada R$ 100 em R$ 5. Nem o Coringa conseguiria queimar dinheiro com tanta eficiência.
O processo que detonou tudo
Em 2022, a demanda já enfraquecia e desafios regulatórios começavam a apertar. Mas o verdadeiro nocaute veio no início de 2023: um processo judicial movido por quase 30 mulheres acusando a marca de usar ingredientes que causavam queda e dano capilar. O ingrediente em questão? Lilial — uma substância já banida na União Europeia.
Ironia das ironias: a empresa que prometia reconstruir cabelo estava sendo acusada de destruí-lo.
A Olaplex negou tudo agressivamente, disse que já tinha removido o lilial dos produtos. O caso foi arquivado. Vitória jurídica, certo?
Porra nenhuma.
O tribunal das redes sociais não tem juiz, não tem recurso e não tem prescrição. O estrago reputacional foi devastador. As vendas líquidas nos EUA despencaram 47,8% no ano fiscal de 2023. O lucro líquido caiu 74,8%. E as ações? Afundaram mais de 50% só naquele ano — e nunca se recuperaram.
Enquanto a Olaplex sangrava, os concorrentes festejavam
Esse é o detalhe que o comunicado bonitinho da CEO Amanda Baldwin não menciona. Enquanto a marca estava ocupada apagando incêndio, competidores como K18, Ouai e Redken avançaram sem piedade sobre o market share que a Olaplex deixou cair no chão.
O mercado de cuidados capilares premium não parou pra esperar ninguém. É capitalismo, baby. Quem vacila, dança.
A tentativa de virada
Baldwin foi recrutada no final de 2023 — ex-CEO da Supergoop — com a missão de salvar o barco. A narrativa oficial? "Olaplex é uma criadora de categoria, redefinindo o que é possível na combinação de beleza e ciência."
Bonito no PowerPoint. Mas e nos números?
No quarto trimestre do último balanço, as vendas líquidas subiram 4,3% na comparação anual, chegando a $105,1 milhões. Parece bom? Olha o ano fiscal de 2025 inteiro: crescimento de 0,1%. Zero vírgula um. Isso nem é crescimento, é margem de erro.
O mercado reagiu como deveria: as ações caíram mais de 20% após o balanço.
A empresa lançou recentemente um novo produto — um tratamento pré-shampoo — tentando provar que ainda tem capacidade de inovação. A cabeleireira de celebridades Tracey Cunningham, que está com a marca desde 2013, segue como porta-voz e evangelista.
Tudo muito lindo. Mas como diria Nassim Taleb: me mostre o P&L, não o press release.
O que isso ensina pro investidor
A história da Olaplex é um lembrete brutal sobre três coisas:
Primeiro: IPOs em janelas de euforia são campos minados. A maioria das empresas que abriu capital em 2021 está destruída.
Segundo: risco reputacional é um risco existencial. Não importa se o processo foi arquivado. Na era das redes sociais, percepção É realidade.
Terceiro: uma ação que caiu 95% pode cair mais 95%. Barato não é sinônimo de oportunidade. Às vezes, barato é só o preço justo do lixo.
Então, antes de olhar pro ticker OLPX e pensar "tá barato demais, vou entrar" — se pergunte: você está vendo valor real ou apenas torce pra que um milagre aconteça?
Porque milagre, meu amigo, é departamento de outro setor.