Tem uma cena clássica no filme O Lobo de Wall Street em que o Jordan Belfort, completamente chapado, tenta explicar pro público como ele ganha dinheiro. A plateia aplaude. Ninguém entendeu porra nenhuma. Mas todo mundo quer entrar.

É mais ou menos isso que tá acontecendo com a OpenAI agora.

O número que faz qualquer um engasgar

A OpenAI — sim, a empresa do ChatGPT, aquela que Sam Altman jurava que seria uma "organização sem fins lucrativos" — acaba de levantar US$ 110 bilhões. Cento e dez bilhões de dólares. Pra dar contexto: o PIB do Paraguai inteiro é menor que isso.

E o objetivo? Correr feito louco em direção a um IPO.

Traduzindo do "economês" pro português da padaria: a OpenAI quer abrir capital na bolsa. Quer que você, eu e o fundo de pensão da sua avó possam comprar ações dela. E antes de fazer isso, tá enchendo o tanque com dinheiro de investidores institucionais que estão apostando que essa empresa vai dominar o mundo.

O circo do "winner takes all"

Olha, eu não sou contra tecnologia. Não sou ludita. Uso IA todo santo dia. Mas vamos separar o joio do trigo aqui.

O que a OpenAI tá fazendo é uma manobra clássica do Vale do Silício: crescer a qualquer custo, queimar caixa como se não houvesse amanhã, e rezar pro mercado continuar acreditando na narrativa antes que a conta chegue.

Lembra da WeWork? Lembra da Theranos? Lembra de todas aquelas empresas que levantaram rodadas absurdas, foram avaliadas em galáxias de dólares, e depois... puf?

"Ah, mas a OpenAI é diferente, ela tem produto real."

Concordo. Tem produto real. O ChatGPT é impressionante. Mas produto real não significa modelo de negócio sustentável. A Amazon demorou quase uma década pra dar lucro. E a Amazon vendia caixas. A OpenAI tá tentando monetizar algo que ninguém sabe precificar direito — inteligência artificial generativa — num mercado que muda a cada 6 meses.

O skin in the game que ninguém pergunta

Nassim Taleb tem uma regra simples: nunca confie em quem não tem a própria pele em risco.

E aí eu pergunto: quem são os investidores colocando esses US$ 110 bilhões? São fundos soberanos, venture capital de elite, gigantes como Microsoft e SoftBank (sim, o mesmo SoftBank que apostou na WeWork). É dinheiro OPM — Other People's Money. Dinheiro dos outros.

Se der merda, o Masayoshi Son não vai passar fome. O fundo soberano de Abu Dhabi não vai cancelar a Netflix. Quem vai se foder é o investidor de varejo que comprar no IPO achando que tá comprando "a próxima Apple".

A conversão de "sem fins lucrativos" pra empresa com fins muito lucrativos já deveria acender uma luz vermelha do tamanho de um farol de estádio. Sam Altman fez essa transição com a sutileza de um caminhão sem freio. E o mercado aplaudiu.

O que isso significa pro seu bolso

Se você investe em tech, precisa entender o seguinte: a corrida da IA tá criando uma concentração de capital sem precedentes. Nvidia, Microsoft, Google, Meta — todas estão despejando centenas de bilhões nessa infraestrutura. Se a IA entregar o que promete, ótimo. Se não entregar na velocidade esperada, vai ter muito investidor segurando papel caro.

Um IPO da OpenAI pode ser o evento definidor dessa era. Ou pode ser o sino tocando no topo do mercado — como a AOL comprando a Time Warner em 2000.

A história financeira não se repete, mas rima. E essa rima tá soando perigosamente familiar.

A pergunta que importa

Warren Buffett costuma dizer que só quando a maré baixa é que você descobre quem tava nadando pelado.

A maré da IA tá alta. Altíssima. Todo mundo parece um gênio. Todo fundo tá no lucro. Todo guru do Instagram tá te vendendo o curso de "como investir em IA".

Mas me diz uma coisa: quando o IPO da OpenAI sair e todo mundo estiver eufórico, você vai ser o cara que compra no topo porque "todo mundo tá comprando"? Ou vai ser o cara que lembra que US$ 110 bilhões de captação antes de dar lucro consistente é um sinal de que alguém precisa muito do seu dinheiro?

Pense nisso antes de apertar o botão de compra.