Sabe aquela cena do Coringa em que ele queima a montanha de dinheiro e diz que "não é sobre o dinheiro, é sobre mandar uma mensagem"? Pois é. A filantropia bilionária americana está cada vez mais parecida com isso — só que ninguém sabe direito quem está queimando o quê, pra quem, e se é de verdade.

O ranking e as ausências gritantes

A Chronicle of Philanthropy soltou seu ranking anual dos 50 maiores filantropos dos EUA. Em 2025, esse grupo doou US$ 22,4 bilhões para caridade. Michael Bloomberg liderou pelo terceiro ano consecutivo, com US$ 4,3 bilhões destinados a artes, saúde pública e outras causas.

Até aí, bonito. Manchete linda pra assessoria de imprensa.

Mas o que chama atenção de verdade não é quem está na lista. É quem não está.

MacKenzie Scott — a ex-mulher do Bezos que já doou mais de US$ 26 bilhões desde 2020 — ficou de fora. Ela mesma anunciou em dezembro que distribuiu US$ 7,2 bilhões em 12 meses para cerca de 225 organizações. Mesmo assim, nada. Zero. Fora do ranking.

O motivo? Seus representantes se recusaram a confirmar quanto ela colocou nos chamados donor-advised funds (DAFs), que são aqueles veículos financeiros que os ricos usam pra organizar doações — e, convenhamos, pra ganhar benefício fiscal imediato sem necessariamente soltar a grana pro destino final na hora.

A Chronicle conta doações para DAFs e fundações, mas não conta os desembolsos desses fundos, pra evitar contagem dupla. Sem a confirmação de Scott, sem vaga na lista.

Musk e Ellison: centibilionários fantasmas

Agora vem a parte que dá vontade de rir — ou de chorar, dependendo do seu nível de cinismo.

Elon Musk, o homem mais rico do planeta segundo a Forbes, não aparece no ranking. Ele revelou num documento regulatório que doou cerca de 210 mil ações da Tesla, avaliadas em quase US$ 100 milhões, para "certas caridades" em dezembro. Certas caridades. Sem nome, sem endereço, sem CPF.

A Chronicle não pôde contar porque, sem saber quem recebeu — e se os destinatários tinham ligação com lobby ou campanhas políticas — a doação fica no limbo. E olha que estamos falando de um centibilionário. O cara tem mais de US$ 200 bilhões e a gente não consegue rastrear pra onde vão US$ 100 milhões.

Larry Ellison, cofundador da Oracle, é outro fantasma. Em 2010, ele assinou o famoso Giving Pledge prometendo doar pelo menos 95% de sua fortuna. Lindo no papel. Mas no ano passado, ele alterou a promessa pra focar em "pesquisa tecnológica" em vez de organizações sem fins lucrativos tradicionais.

"Não está realmente claro o que ele está doando ou para quem", disse Maria Di Mento, editora sênior da Chronicle, que trabalha nesses rankings há 21 anos.

Porra. Vinte e um anos cobrindo esse circo.

O medo dos ricos de serem... ricos

Aqui a coisa fica interessante de verdade. Segundo Di Mento, os ultra-ricos estão ficando cada vez mais secretos sobre suas doações. Não por modéstia cristã — longe disso.

Primeiro: o ressentimento público contra bilionários cresceu "aos saltos" nos últimos anos. Segundo: toda vez que um ricaço coloca o nome numa doação, é bombardeado por captadores de recursos de outras ONGs pedindo grana. É tipo postar seu Pix nas redes sociais.

19 dos 400 membros da lista Forbes aparecem no ranking dos 50 maiores filantropos. Menos de 5%.

E aí a Di Mento solta a frase mais honesta do artigo inteiro: "Muitos dos ultra-ricos não estão doando tanto quanto poderiam, mas também não existe nenhuma lei que os obrigue a divulgar suas doações."

A verdade inconveniente

O jogo da filantropia bilionária é, em grande medida, um jogo de relações públicas com benefício fiscal. Donor-advised funds permitem dedução imediata de impostos sem obrigação de quando — ou se — o dinheiro chegará ao destino final. Promessas públicas como o Giving Pledge não têm força legal nenhuma. E rankings como o da Chronicle dependem da boa vontade dos bilionários em abrir seus números.

Nassim Taleb diria: cadê o skin in the game? Prometer doar 95% da fortuna e depois mudar os termos da promessa é o equivalente moral de assinar um cheque pré-datado com data de quando você já morreu.

Enquanto isso, Bloomberg — que pelo menos bota o dinheiro na mesa com nome e sobrenome — lidera pelo terceiro ano.

A pergunta que fica: se você precisa da cooperação do bilionário pra saber se ele é generoso, ele é generoso mesmo — ou só tem um bom assessor de imprensa?