Tem uma frase que o Buffett nunca disse, mas poderia: "Quando o petróleo espirra, o passageiro pega pneumonia."

Pois é. Faz menos de duas semanas que os EUA e Israel atacaram o Irã, e o querosene de aviação — aquele custo que as companhias aéreas fingem que controlam — mais que dobrou em algumas regiões do planeta. E adivinha quem vai pagar essa festa? Spoiler: não é o CEO da United sentado na poltrona de couro do jatinho corporativo.

O circo já começou

A Cathay Pacific anunciou nesta quinta-feira que vai praticamente dobrar a sobretaxa de combustível nos bilhetes a partir de 18 de março. A Qantas, lá da Austrália, já subiu as tarifas. A SAS (Scandinavian Airlines) falou abertamente que o aumento foi "incomumente rápido e substancial" — tradução do economês escandinavo: porra, não esperávamos isso. E a Air New Zealand foi mais honesta de todas: retirou suas projeções financeiras até o mercado de combustível se estabilizar. Ou seja, estão voando no escuro. Literalmente.

Aqui vai o número que importa: querosene de aviação é o segundo maior custo de uma companhia aérea, atrás apenas de salários. Representa 20% ou mais das despesas operacionais. Só a United Airlines gastou US$ 11,4 bilhões em combustível no ano passado, a um preço médio de US$ 2,44 o galão. Na quarta-feira, o galão estava cotado a US$ 3,78 segundo a Platts. Faz a conta: isso é um aumento de mais de 50% — e subindo.

O xadrez das aéreas (e o peão é você)

Scott Kirby, CEO da United, disse na semana passada — de boa, nos bastidores de um evento em Harvard — que tarifas mais altas "provavelmente estão a caminho." Ele também disse que a demanda por viagens continua forte. Dois outros executivos sênior de aéreas americanas confirmaram o mesmo, claro, sob anonimato, porque ninguém quer ser o cara que aparece na manchete dizendo "vamos te cobrar mais."

E é aí que mora o paradoxo cruel: enquanto a demanda for forte, as aéreas têm poder de precificação. É a velha lei da oferta e procura vestida de terno e gravata. A analista da Jefferies, Sheila Kahyaoglu, colocou o dedo na ferida: o impacto financeiro mais agudo vai acontecer nos próximos 30 a 90 dias, porque as aéreas já tinham vendido passagens assumindo um preço de combustível muito menor. Elas não podem retroativamente aumentar tarifas de bilhetes já emitidos. Então o prejuízo de curto prazo está contratado.

A UBS já cravou: impacto nos lucros do primeiro trimestre é praticamente certo. Se a guerra se prolongar, o primeiro semestre inteiro vai pro saco.

Delta e United devem sofrer menos porque atendem o público premium — aquele cara que paga US$ 8 mil na classe executiva e não pisca. Quem vai sangrar são as low-cost e as aéreas que dependem do passageiro sensível a preço. E com a gasolina também subindo, o efeito cascata pega o consumidor americano — e por tabela, o mundo todo.

Então, o que fazer? Comprar passagem agora ou esperar?

Scott Keyes, fundador da Going (ex-Scott's Cheap Flights), deu a dica mais inteligente que ouvi sobre o assunto: compre agora, mas NÃO compre tarifa básica restritiva.

A lógica é simples e elegante como um trade bem feito: se você compra uma passagem de verão por US$ 500 hoje e daqui duas semanas o preço cai pra US$ 350, você liga pra companhia aérea e recebe US$ 150 de crédito de volta. Cara, você ganha. Coroa, a aérea perde.

É basicamente uma opção de compra gratuita sobre o preço da passagem. Nassim Taleb ia adorar — assimetria favorável, risco limitado.

Agora, se você ficar esperando sentado achando que o querosene vai cair porque "a guerra vai acabar logo" — boa sorte. Ninguém sabe quanto tempo esse conflito dura. Ninguém sabe se vai escalar. E cada dia que passa com o Irã no noticiário é um dia em que alguma companhia aérea está ajustando planilha de precificação pra cima.

A pergunta que ninguém faz

Todo mundo foca no preço da passagem. Mas a verdadeira questão é: o que acontece com o turismo global de US$ 11,7 trilhões se essa guerra não acabar rápido? Hotéis, cruzeiros, seguros de viagem, rotas canceladas, desvios, reembolsos — é uma cadeia de dominós que vai muito além do preço do galão de querosene.

Enquanto isso, os CEOs das aéreas americanas vão se reunir na terça-feira na conferência da J.P. Morgan em Washington pra "atualizar investidores." Tradução: vão tentar convencer Wall Street de que está tudo sob controle enquanto o Oriente Médio queima.

Você acredita neles?