"Esses preços estão baixos."
Foi o que Marc Benioff, CEO da Salesforce, disse na call com analistas ao justificar uma recompra monstruosa de $50 bilhões em ações. Quando o capitão do navio precisa ir a público dizer que a própria empresa tá barata, você tem duas opções: acreditar que é oportunidade — ou desconfiar que ele tá tentando segurar um Titanic.
As ações caíram cerca de 4% no pré-mercado de quinta-feira. E olha que os números do quarto trimestre fiscal (encerrado em 31 de janeiro) vieram acima do consenso.
Os números que importam
Vamos ao que interessa, sem firula:
- Lucro por ação ajustado: $3,81 vs. $3,04 esperado. Pancada pra cima.
- Receita: $11,20 bilhões vs. $11,18 bilhão esperado. De raspão, mas acima.
- Crescimento de receita: 12% ano contra ano — o mais rápido em dois anos.
- Receita diferida de curto prazo (cRPO): $35,1 bilhões vs. $34,53 bilhões esperado.
Lucro líquido de $1,94 bilhão, contra $1,71 bilhão no mesmo período do ano anterior. Até aqui, tudo bonito.
Então por que a ação caiu?
O guidance que azedou o caldo
Porque o mercado não vive de passado. Vive de expectativa. E a expectativa para o ano fiscal de 2027 veio assim:
- Receita projetada: $45,8 bi a $46,2 bi (implica crescimento de 10% a 11%)
- Consenso LSEG: $46,06 bi
Parece próximo? É. Mas o mercado queria mais. Queria um sinal de que a Salesforce está surfando a onda de IA com força suficiente pra acelerar, não pra manter o ritmo. O guidance do primeiro trimestre veio ligeiramente acima ($11,03 bi a $11,08 bi vs. $10,99 bi esperado), mas não o suficiente pra acalmar os nervosos.
E nervoso é o que não falta nesse setor.
O fantasma da IA que come software por café da manhã
Aqui tá o elefante na sala. Nas últimas semanas, investidores têm massacrado ações de software por um medo muito específico: e se a inteligência artificial generativa tornar boa parte desses produtos obsoletos?
Caso emblemático: a IBM despencou 13% em um único dia — pior performance diária desde 2000 — depois que a Anthropic publicou que seu Claude Code consegue ajudar a modernizar código escrito em COBOL. COBOL, porra. A linguagem que sustenta metade dos mainframes do planeta. Se a IA morde até aí, imagina o que faz com CRM.
A Salesforce não tá parada. Lançou um assistente com IA no Slack, completou a aquisição de $8 bilhões da Informatica (que já contribuiu $399 milhões em receita no trimestre) e anunciou a compra da Qualified, empresa de marketing. A receita anualizada do Agentforce — a plataforma de IA para automação de atendimento — passou de $800 milhões.
Benioff também elevou a meta de receita para o ano fiscal de 2030: $63 bilhões, acima dos $60 bilhões projetados em outubro. Analistas esperavam $59 bilhões. Mas essa meta inclui a Informatica — ou seja, boa parte do aumento é inorgânico, comprado, não construído.
A recompra de $50 bi: confiança ou desespero?
Vamos colocar em perspectiva. A Salesforce já caiu 28% em 2026 enquanto o S&P 500 subiu 1%. Quando a empresa anuncia a maior recompra da sua história nesse contexto, há duas leituras:
Leitura otimista (Warren Buffett aprovaria): a empresa gera caixa absurdo, acredita que o mercado está precificando errado e está colocando o dinheiro onde a boca está. Skin in the game.
Leitura cética (Nassim Taleb levantaria a sobrancelha): recompra massiva pode ser cortina de fumaça pra mascarar desaceleração orgânica. Quando você não consegue convencer o mercado com crescimento, tenta convencer encolhendo o denominador do lucro por ação.
A verdade provavelmente mora no meio. A Salesforce é uma máquina de receita recorrente. Não vai morrer. Mas a narrativa de que ela seria a grande beneficiária da era da IA corporativa tá sendo testada — duramente.
Benioff ainda deu uma cutucada na ServiceNow, dizendo que cinco clientes deles migraram pra Salesforce no trimestre. Briga de cachorro grande. Mas no mercado de software enterprise em 2026, a pergunta não é mais quem rouba cliente de quem. É se a IA não vai comer o almoço de todo mundo.
A recompra de $50 bilhões é a Salesforce apostando em si mesma. A queda de 4% é o mercado dizendo: "Legal, mas me mostra o crescimento primeiro."
E você? Compraria uma empresa cujo próprio CEO precisa gritar que tá barata?