Pega essa: a State Farm, maior seguradora de automóveis dos Estados Unidos — uma mútua, ou seja, uma empresa que pertence aos seus segurados, não a acionistas de Wall Street — anunciou que vai devolver US$ 5 bilhões em dividendos aos clientes. Isso dá cerca de US$ 100 por carro segurado.

Cem dólares. Parece pouco, né?

Mas espera. Coloca isso em perspectiva.

O modelo que ninguém te conta

A State Farm não é uma seguradora qualquer. Ela é uma mútua. Isso significa que não tem ações negociadas em bolsa, não tem CEO babando por bônus trimestrais, não tem fundo de hedge pressionando por "retorno ao acionista". Os donos da empresa são... os próprios clientes.

Quando a empresa lucra mais do que precisa para cobrir sinistros e manter reservas saudáveis, ela devolve o excedente. Simples assim. Sem firula, sem marketing de "cashback disruptivo", sem influencer fazendo dancinha no TikTok.

É o modelo que Benjamin Graham adoraria. É pele no jogo — skin in the game — na sua forma mais pura. Você paga o seguro, a empresa administra o risco, e se sobrar, o dinheiro volta pra você. Porra, que conceito revolucionário, não?

Enquanto isso, no Brasil...

Aqui, o mercado de seguros auto é um festival de opacidade. Você recebe aquele boleto gordo, com reajuste de 15%, 20%, às vezes 30%, e a explicação é sempre a mesma ladainha: "aumento na frequência de sinistros", "custo de peças importadas", "inflação do setor". Tudo muito vago. Tudo muito conveniente.

As grandes seguradoras brasileiras — que são subsidiárias de bancões ou de conglomerados financeiros — operam num modelo onde o lucro vai pro acionista, o prejuízo vai pro cliente, e a opacidade vai pro relatório anual que ninguém lê.

Não estou dizendo que o modelo mútuo é perfeito. A própria State Farm levou uma surra em 2023, reportando prejuízos bilionários por conta de catástrofes climáticas e inflação nos custos de reparo. Teve que pedir aumento de prêmios em vários estados. A Califórnia, então, virou um pesadelo — a empresa chegou a parar de emitir novas apólices lá.

Mas aqui está o ponto: quando a casa se arruma, o dinheiro volta pro dono. E o dono é o cliente.

O que US$ 5 bilhões realmente significam

Vamos fazer a conta de padaria. A State Farm tem algo em torno de 50 milhões de apólices de auto. Cinco bilhões divididos por 50 milhões dá cem dólares por veículo. Não vai mudar a vida de ninguém. Não vai pagar a entrada de um carro novo.

Mas o sinal que isso manda é enorme.

Significa que a empresa gerou caixa suficiente para devolver um caminhão de dinheiro depois de cobrir todos os sinistros, despesas operacionais e reservas prudenciais. Significa que o modelo de negócio está saudável. Significa que a gestão de risco funcionou.

Compare com o que aconteceu nos últimos anos no mercado de seguros americano: empresas saindo de estados inteiros, prêmios explodindo, seguradoras menores quebrando. A State Farm apanhou, mas sobreviveu. E agora está devolvendo dinheiro.

É como aquele personagem do Rocky Balboa que leva porrada a noite inteira, mas no final está de pé enquanto os outros estão no chão.

A lição que o mercado brasileiro se recusa a aprender

O modelo de mútua não é novidade. Existe há séculos. Funciona em seguros, funciona em cooperativas de crédito, funciona em diversas áreas. Mas exige algo que o mercado financeiro brasileiro odeia: alinhamento de interesses genuíno entre empresa e cliente.

Aqui, preferimos o modelo onde o banco vende o seguro no balcão junto com a conta corrente, cobra o que quer, e o cliente aceita porque "é do banco, deve ser bom". Nassim Taleb chamaria isso de assimetria perversa — quem decide o preço não sofre as consequências de errar.

A State Farm devolvendo cinco bilhões é uma notícia que deveria provocar um debate sério sobre como funciona o mercado de seguros no Brasil. Mas não vai. Porque o circo prefere falar de cripto meme e da próxima ação que vai "explodir".

Então fica a pergunta incômoda: você sabe pra onde vai o lucro da sua seguradora?

Porque a State Farm sabe. E está mandando de volta.