Tem um velho ditado que os traders experientes conhecem bem: o que não é dito vale mais do que o que é.

Trump acabou de fazer o maior discurso do Estado da União de toda a história americana. O homem falou sobre inflação, tarifas, recordes na bolsa, Venezuela, militares, fronteiras — o show completo. Durou uma eternidade.

E China? Praticamente nada.

Um único aceno de cabeça. Uma referência de passagem à "tecnologia militar russa e chinesa" que protegia Nicolás Maduro na Venezuela. Só isso. O gigante de 1,4 bilhão de pessoas, segunda maior economia do planeta, principal rival geopolítico dos EUA, mentor do adversário tecnológico mais sério que os americanos já enfrentaram — mencionado como figurante numa história sobre a Venezuela.

Se você achou estranho, você está prestando atenção.


O Silêncio Estratégico de Quem Quer Fazer um Negócio

Vamos ao que interessa: Trump planeja visitar Pequim entre 31 de março e 2 de abril. Seria a primeira visita de um presidente americano à China desde 2017. E o Ministério das Relações Exteriores chinês ainda não confirmou as datas oficialmente.

Pensa bem no que isso significa.

Gabriel Wildau, da Teneo, foi direto ao ponto: "Trump não quer provocar a China em ano eleitoral." As eleições de meio de mandato estão chegando em novembro, e estabilidade nas relações com Pequim virou prioridade número um.

Traduzindo do economês para o português de padaria: Trump está de namorado com a China agora, tentando marcar a visita, e xingar o parceiro no discurso mais assistido do ano seria matar o negócio antes de fechar.

É básico. É humano. É o Trump sendo o Trump — empresário antes de tudo.

Mas tem um detalhe que incomoda. George Chen, do The Asia Group, notou que o lado chinês ainda não confirmou as datas da visita. "Isso faz Trump parecer mais desesperado para visitar a China do que Xi Jinping quer recebê-lo."

E aí entra Nassim Taleb sussurrando no seu ouvido: quem precisa mais do negócio tem menos poder na mesa.


O Circo das Tarifas Ainda Não Acabou

Para entender por que esse silêncio importa pra você, investidor, precisa do contexto completo.

Na primavera passada, EUA e China se massacraram mutuamente com tarifas que ultrapassaram 100%. Foi uma guerra comercial de verdade. Em outubro chegaram a uma trégua — tarifas caíram para abaixo de 50% pelo próximo ano.

Mas na semana passada, a Suprema Corte americana derrubou parte das tarifas que Trump havia imposto. Ele imediatamente começou a buscar outra base legal para reinstaurá-las. A incerteza voltou pelo fim de semana.

E enquanto isso, a China foi silenciosamente apertar o controle sobre as exportações de terras raras — os minerais críticos que estão em absolutamente tudo: baterias de veículos elétricos, semicondutores, equipamentos militares. A China domina essa cadeia de fornecimento de um jeito que faz qualquer dependência de petróleo parecer amadora.

Wildau resumiu com precisão cirúrgica: "O discurso mostrou que Trump acredita que glorificar triunfos militares sobre estados fracos como a Venezuela faz melhor política eleitoral do que brigar com a China por terras raras."

Traduzindo: brigar com a Venezuela rende aplauso fácil. Brigar com a China pode quebrar a cadeia de suprimentos de tecnologia americana. São apostas completamente diferentes.


A Ironia Que os Democratas Adoraram Servir

Enquanto Trump evitava mencionar China no palco principal, a réplica democrata foi um ataque frontal.

A governadora da Virgínia, Abigail Spanberger, foi na jugular: "Enquanto o presidente fala de seus supostos sucessos, ele continua cedendo poder econômico e força tecnológica à Rússia, se curvando à China, se curvando a um ditador russo."

Bonito golpe político. Mas vazio de substância real — o que é marca registrada da oposição fazendo oposição por fazer.

O ponto verdadeiro é outro. Yue Su, economista-chefe da Economist Intelligence Unit, colocou na mesa algo que merece atenção: Biden, com todos os seus defeitos, mantinha um discurso consistente e previsível sobre a China. Dava para modelar. Dava para precificar risco.

Com Trump, você está operando no escuro. O mercado ama previsibilidade e odeia ambiguidade. E esse silêncio estratégico é, por definição, ambiguidade embalada em sorriso diplomático.


O Que Isso Significa Para Você

Se Trump chegar a Pequim e fechar um grande acordo comercial, os mercados vão enlouquecer para cima. Setores de tecnologia, commodities, exportação americana — tudo pode disparar numa narrativa de "paz comercial".

Se a visita travar, se Xi fizer tempero, se as tarifas voltarem a subir — prepare o estômago.

O silêncio de Trump sobre a China no discurso mais longo da história americana não é esquecimento. É cálculo.

A pergunta que você deveria estar fazendo não é "por que ele não falou?" — é "o que ele está negociando em silêncio, e eu estou posicionado do lado certo dessa aposta?"

Quem tem skin in the game já sabe que quando o Trump fica quieto sobre algo grande, é porque o jogo já está acontecendo nos bastidores.

E você? Está assistindo o discurso ou está de olho no negócio real?