Sabe aquela cena do Titanic em que o navio já bateu no iceberg, a água já está entrando pela proa, mas a orquestra continua tocando no salão de festas?
Pois é. O UBS acabou de largar o violino e sair correndo pro bote salva-vidas.
O rebaixamento
Andrew Garthwaite, chefe de estratégia global de ações do UBS — um cara que não é qualquer analista de fundo de quintal com conta no Instagram — rebaixou as ações americanas para "benchmark" dentro de um portfólio global. Em bom português: o banco suíço está dizendo que acabou a era de apostar todas as fichas nos EUA como se fosse certeza divina.
E os motivos? Não é um só. É uma combinação perversa de fatores que, juntos, formam uma tempestade que o mercado americano pode não aguentar com a mesma elegância dos últimos anos.
O dólar: a peça-chave que ninguém quer encarar
O UBS vê o euro chegando a US$ 1,22 até o fim do primeiro trimestre e fala abertamente em "riscos assimétricos estruturais de queda" pro dólar. Traduzindo do economês pra linguagem de gente: o banco acha que o dólar tem muito mais espaço pra cair do que pra subir.
E isso importa — e muito. Historicamente, quando o índice ponderado pelo comércio do dólar cai 10%, as ações americanas underperformam em cerca de 4% em termos não-hedgeados. Quatro por cento pode parecer fichinha no papel, mas quando você está falando de trilhões de dólares em capitalização de mercado, é uma pancada e tanto.
Enquanto isso, olha o que está acontecendo lá fora: o MSCI World ex-US subiu 8% em 2026. O Nikkei japonês disparou 17%. O Stoxx Europe 600 acumula alta de 7%. E o todo-poderoso S&P 500? Praticamente parado. Zerado. Estacionado como carro em porta de cemitério.
O dinheiro esperto está saindo dos EUA. E quando o dinheiro esperto sai, o dinheiro burro demora um pouco, mas segue atrás.
Buybacks: a muleta que quebrou
Uma das grandes sacadas das empresas americanas nos últimos anos foi a recompra de ações. Compra ações próprias, reduz o float, infla o lucro por ação, investidor fica feliz, ação sobe. Ciclo bonito. Perfeito demais, na verdade.
Pois bem: o UBS aponta que o rendimento de buybacks nos EUA agora está basicamente na mesma linha dos pares globais. Acabou a vantagem. E pior: o rendimento combinado de dividendos + recompras nos EUA é agora metade do europeu.
Leu direito? Metade.
Como disse Garthwaite: "O rendimento de buybacks não é mais excepcional, e isso era um driver importante de fluxo de fundos, EPS e valuations."
Quando a muleta que sustentava o paciente quebra, o paciente cai.
Valuations: pagando champagne francês por cerveja genérica
O P/E ajustado por setor das ações americanas está 35% acima dos pares internacionais. A média histórica desde 2010? Uns míseros 4%. Sessenta por cento dos setores americanos estão negociando não apenas acima dos pares globais, mas acima do seu próprio prêmio histórico.
Isso não é otimismo. Isso é complacência.
É como pagar R$ 500 num rodízio de carne porque alguém te convenceu que a picanha de lá é mágica, quando na verdade é a mesma peça que você acha por R$ 80 no açougue da esquina.
O fator Trump: volatilidade política como estilo de governo
Tarifas que mudam de semana em semana. Propostas pra limitar juros de cartão de crédito. Possíveis restrições a private equity no setor imobiliário. Pressão sobre preços de remédios. Ameaças de cortar dividendos e recompras de empresas de defesa.
O governo Trump transformou a política econômica num episódio de reality show onde ninguém sabe o que vai acontecer no próximo bloco. E mercados odeiam incerteza — especialmente quando ela vem de quem deveria ser o adulto na sala.
Mas nem tudo é apocalipse
Crédito ao Garthwaite: ele não virou urso total. Reconhece que os EUA ainda se beneficiam nas fases iniciais de bolhas potenciais e que a adoção de inteligência artificial por lá segue à frente de quase todo mundo (com exceção talvez da China). O target do UBS pro S&P 500 no fim do ano é 7.500 — abaixo da média dos estrategistas (7.629), mas não é nenhum cenário de catástrofe.
A questão não é se os EUA vão afundar. A questão é se continua fazendo sentido ter uma alocação desproporcional em ações americanas quando o resto do mundo está mais barato, rendendo mais e finalmente acordando.
Então me diz: você ainda está com todo seu dinheiro apostado no excepcionalismo americano porque realmente analisou os números, ou simplesmente porque é o que todo mundo à sua volta está fazendo?
Porque seguir a manada, historicamente, nunca foi estratégia. É só o caminho mais confortável até o abismo.