Tem uma cena clássica no filme O Poderoso Chefão em que o Don Corleone olha pro filho e diz: "Nunca me conta o que você está fazendo. Me preocupa."

O Seamus Blackley, um dos caras que literalmente inventou o Xbox lá no início dos anos 2000, fez exatamente o oposto. Ele contou. E aí ficou nervoso com a própria sinceridade.

Primeiro, ele foi na rede social e comparou o trabalho do novo chefe do Xbox — Jez Corden sendo citado sobre a liderança da divisão — ao de um médico paliativista. Sabe o que é médico paliativista? É o profissional que cuida de quem não tem mais cura. Que garante uma morte digna, sem sofrimento. Uma saída honrosa.

Depois, quando o estrago já estava feito e a internet já tinha pegado a declaração e passado no liquidificador, Blackley voltou atrás. "Ei, não quis dizer que o Xbox tá morto."

Clássico. Fez a autópsia e disse que o paciente ainda tá vivo.


O que isso tem a ver com mercados e investimentos?

Tudo.

Porque o Xbox não é só um videogame. É uma divisão inteira da Microsoft — uma das maiores empresas do planeta, com market cap na casa dos trilhões de dólares. E quando o co-criador de um produto estratégico dessa magnitude começa a usar metáforas de morte, os investidores não deveriam estar dormindo.

A divisão de games da Microsoft virou uma bagunça caríssima. A aquisição da Activision Blizzard por quase 69 bilhões de dólares — sim, bilhões com B — foi a maior da história da empresa. E o que se viu depois? Demissões em massa, estúdios fechando, franquias sendo enterradas antes do tempo, e o market share de console encolhendo enquanto o PlayStation 5 da Sony vende como pão quente.

Isso é o que acontece quando uma grande corporação toma uma decisão estratégica bilionária sem ter skin in the game. Os executivos que aprovaram a aquisição da Activision recebem seus bônus de qualquer jeito. Se der errado, é o acionista que arca.

Nassim Taleb explicou isso melhor do que ninguém: quando quem decide não sofre as consequências da decisão, as decisões ficam horríveis.


Mas o Xbox vai morrer?

Depende do que você chama de morte.

Morte de console físico? Provavelmente. O Xbox Series X/S está apanhando feio do PS5 em praticamente todo lugar que não seja os Estados Unidos. A estratégia de hardware parece cada vez mais uma distração cara.

Morte de marca? Aí complica mais. A Microsoft tem o Game Pass, tem o PC Game Pass, tem a Azure rodando serviços de jogos em nuvem, tem o Activision, tem a franquia Call of Duty que sozinha já vale mais do que vários países emergentes.

O que parece estar acontecendo é uma pivotagem clássica de modelo de negócio. Sair do hardware (onde apanham da Sony) e ir pra software e serviços (onde ninguém consegue competir com a Microsoft). É basicamente o que a empresa fez no mercado corporativo nos anos 2010 — abandonou a briga pelo Windows Phone e foi dominar a nuvem com o Azure.

Mas essa transição tem um custo humano brutal. Milhares de desenvolvedores demitidos. Estúdios inteiros fechados. Gente que passou anos construindo jogos incríveis, jogada fora como ativos descartáveis num balanço patrimonial.

E o Blackley sabe disso. Por isso a metáfora escorregou.


A lição real aqui

Não é sobre Xbox. É sobre o que acontece quando uma empresa gigante perde o senso de propósito e começa a tomar decisões pela lógica do "precisamos mostrar crescimento pro próximo earnings call".

A Microsoft comprou a Activision porque precisava de uma história boa pra contar pro mercado. Uma narrativa de crescimento no metaverso, no gaming, no futuro digital. Wall Street adorou. Os analistas de terno aplaudiram. Os relatórios de banco de investimento saíram com preço-alvo na lua.

E agora? O co-fundador do Xbox tá comparando a liderança da divisão a um médico paliativista.

Sabe quem nunca precisa recuar de metáfora nenhuma? Quem nunca apostou o próprio dinheiro na tese que vendeu.

Pergunta que fica: se você fosse obrigado a colocar todo seu patrimônio numa tese que defende publicamente — você mudaria alguma coisa?

Se a resposta for sim, talvez você seja exatamente o tipo de pessoa que o Taleb passa a vida inteira criticando.

Pense nisso.