Olha, eu juro que tento não me surpreender mais. Mas o mercado financeiro é como aquele episódio de Black Mirror que você acha exagerado demais — até virar realidade.

A notícia é a seguinte: a Allstate (ticker: ALL) recebeu uma recomendação de "Outperform" — ou seja, "vai superar o mercado" — e adivinhe de quem? Da própria Allstate.

Sim. Você leu certo.

É como se o Coringa desse uma nota 10 pra própria maquiagem. É o padeiro dizendo que o melhor pão da cidade é o dele. É o cara no Tinder dando super like em si mesmo.

O que diabos é um rating "Outperform"?

Pra quem não vive nesse circo, vou traduzir o "economês":

Outperform é a maneira elegante que analistas usam pra dizer "compra essa porra". É um degrau abaixo do "Strong Buy" (compra forte), mas na prática é o mesmo recado: "coloca grana aqui que vai valorizar mais que o mercado geral."

O problema? Quando a recomendação vem de uma parte interessada, ela vale o mesmo que conselho de sogra sobre seu casamento. Pode até estar certo, mas o conflito de interesse é tão óbvio que dói.

O problema estrutural que ninguém quer discutir

Isso não é exclusividade da Allstate. É um vício sistêmico do mercado de capitais.

Warren Buffett já falou sobre isso com aquela calma mortal dele: "Wall Street é o único lugar onde pessoas que chegam de Rolls Royce pedem conselhos a pessoas que chegam de metrô."

Nassim Taleb foi mais longe — e mais grosso. No "Skin in the Game", ele martela: se o analista não tem o próprio dinheiro na mesa, a opinião dele vale zero. Menos que zero. Porque pode te induzir ao erro com uma etiqueta de credibilidade.

E aqui temos algo pior: não é só um analista sem skin in the game. É a própria empresa se auto-recomendando. O conflito de interesse não está escondido — está estampado na cara de quem quiser ver.

E a Allstate, é boa ou não?

Vamos separar o joio do circo.

A Allstate é uma das maiores seguradoras dos EUA. Empresa gigante, listada no S&P 500, com décadas de operação. Não é uma meme stock nem uma startup de garagem.

Nos últimos trimestres, o setor de seguros nos Estados Unidos passou por um ajuste importante. Catástrofes climáticas pressionaram os resultados, mas as seguradoras que conseguiram reprificar suas apólices — ou seja, cobrar mais caro — começaram a ver margens melhorando.

A Allstate se encaixa nesse grupo. Os números recentes mostram recuperação de lucratividade. Então, pode ser que a ação realmente tenha upside.

Mas — e esse "mas" é do tamanho do Grand Canyon — isso não justifica a auto-recomendação. Uma coisa é a tese de investimento ser válida. Outra é a empresa ser juiz e jogador ao mesmo tempo.

O que você deveria fazer com essa informação?

Primeiro: desconfie de qualquer recomendação que venha de parte interessada. Sempre. Sem exceção.

Segundo: se a Allstate te interessa como investimento, vá fazer o dever de casa. Olhe o combined ratio (métrica crucial pra seguradoras — quanto menor que 100%, mais lucrativa a operação). Olhe o histórico de dividendos. Olhe como a gestão lidou com os eventos climáticos recentes. Compare com Travelers, Progressive, Chubb.

Terceiro — e mais importante: nunca, jamais, em hipótese alguma tome decisão de investimento baseado em um rating de uma linha. Isso é preguiça intelectual. E preguiça no mercado financeiro se paga com dinheiro.

Benjamin Graham, o pai do value investing, já avisava lá nos anos 1930: "O investidor inteligente é um realista que compra de otimistas e vende para pessimistas." Ele não disse nada sobre comprar baseado em auto-elogio corporativo.

A pergunta que fica

Se a Allstate precisa se auto-recomendar, será que mais ninguém está tão entusiasmado assim?

Ou será que isso é só mais um dia normal no teatro de marionetes que chamam de mercado financeiro — onde todo mundo sorri, todo mundo recomenda, e o investidor de varejo é sempre o último a descobrir que era o palhaço da festa?

Pense nisso antes de apertar o botão de compra.