Tem uma cena no filme The Big Short em que Mark Baum olha pros números, vê que tá tudo inflado, e mesmo assim o mercado continua subindo. Todo mundo feliz. Todo mundo comprando champanhe.
Pois é. Broadcom reporta resultados do primeiro trimestre fiscal hoje depois do fechamento do mercado. E o clima é exatamente esse: números bons na mesa, mas uma ansiedade filha da mãe pairando no ar.
Os números que Wall Street espera
Vamos ao economês traduzido pra linguagem de gente:
- Lucro por ação ajustado: US$ 2,03
- Receita esperada: US$ 19,18 bilhões
- Crescimento ano contra ano: quase 29%
Porra, 29% de crescimento pra uma empresa desse tamanho não é pouca coisa. Isso é uma máquina pesada acelerando na estrada, não uma startupzinha de garagem queimando dinheiro de venture capital.
A Broadcom surfou a onda de inteligência artificial como poucos. Em 2025, a receita de IA da empresa saltou 65%. Ela é peça fundamental no desenvolvimento dos TPUs (Tensor Processing Units) do Google — os chips que fazem a mágica da IA do Google funcionar. O CEO Hock Tan, aquele cara com cara de quem já viu de tudo, bateu no peito em dezembro e disse que a receita de IA do primeiro trimestre iria dobrar para US$ 8,2 bilhões.
Dobrar. Não crescer 10%. Não crescer 20%. Dobrar.
Então por que a ação está apanhando?
Aqui mora o paradoxo que o mercado financeiro adora criar pra tirar o sono de investidor pessoa física.
As ações da Broadcom caíram 9% em 2026 até agora. O S&P 500? Estável. Flat. Zero a zero.
Ou seja: enquanto o índice fica ali parado tomando cafezinho, a Broadcom — que cresce 29%, que dobra receita de IA — está levando porrada.
Os analistas da Evercore, que recomendam compra do papel, disseram numa nota na segunda-feira algo que resume bem o sentimento: "Na nossa visão, é provável que a ação esteja sendo arrastada pela preocupação dos investidores de que 2026 marca o pico de capex em equipamentos de IA."
Leu direito? Pico.
O mercado não está olhando pro retrovisor. Está olhando pro que vem depois da festa. E a pergunta que ninguém quer responder é: e se todo esse gasto trilionário em infraestrutura de IA desacelerar? E se Google, Meta, Microsoft e companhia decidirem que já gastaram o suficiente?
É a lógica do Taleb invertida: o mercado está precificando o risco da cauda antes dela acontecer. Às vezes com razão. Às vezes por puro pânico de manada.
O elefante VMware na sala
Tem outro ponto que pouca gente está comentando. A Broadcom comprou a VMware em 2023 — aquela gigante de software de virtualização de servidores. E as ações de software como um todo estão sob pressão há semanas porque investidores estão se perguntando: será que a IA generativa vai comer o almoço dessas empresas?
Wall Street espera US$ 12,25 bilhões de semicondutores e US$ 7,02 bilhões de software de infraestrutura. Esse segundo número é basicamente o termômetro do investimento na VMware. Se vier fraco, o mercado vai pular na jugular.
No trimestre, a Broadcom ainda lançou novos chips Wi-Fi 8. Legal, mas ninguém no mercado está dando bola pra isso agora. É como mostrar seu carro novo no meio de um incêndio.
O que vem depois
Para o segundo trimestre fiscal, os analistas esperam US$ 2,17 de lucro por ação ajustado e receita de US$ 20,56 bilhões. Ou seja, a expectativa é de aceleração contínua.
A conference call começa às 18h (horário de Brasília). Hock Tan vai ter que fazer o que sempre faz: vender o futuro com convicção suficiente pra acalmar os nervosos.
Dan Niles, da Niles Investment, disse na CNBC que se fosse comprar tech, escolheria Broadcom e Nvidia primeiro. Tudo bem. Mas o Dan Niles tem skin in the game. E você?
Porque aqui está a questão real: você está comprando Broadcom porque entende o negócio, ou porque alguém no Twitter te disse que IA é o futuro?
Se a resposta for a segunda, talvez você seja o produto, não o investidor.
Os números saem daqui a poucas horas. E como diria o Coringa: "E aí começa o show."