Tem uma cena no filme "O Grande Golpe" (The Big Short) em que Mark Baum olha pro mercado de hipotecas subprime e pergunta: "Ninguém tá vendo essa merda?" Pois é. Troque hipotecas por dívida corporativa de tecnologia e você tem o roteiro de 2026.

O circo do IPO versus a realidade da dívida

Todo mundo no mercado financeiro brasileiro adora repetir: "Vai ter IPO da SpaceX!", "OpenAI vai abrir capital!", "Anthropic na bolsa!". Os analistas de terno ficam salivando nos podcasts, os influencers financeiros já montam suas teses de "como investir no IPO do século".

Sabe quantos IPOs relevantes de tech aconteceram em 2026 até agora?

Zero.

Nenhum. Nada. Zilch.

Enquanto isso, no silêncio ensurdecedor dos mercados de renda fixa — onde jornalista de fintwit não vai porque não dá like — está acontecendo algo monumental.

A montanha de dívida que ninguém quer ver

As quatro gigantes — Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft — vão gastar coletivamente perto de US$ 700 bilhões este ano em capex e leasing para alimentar seus data centers de inteligência artificial. Setecentos bilhões. Pra contextualizar, isso é mais que o PIB da Argentina, da Colômbia e do Chile juntos.

E como elas estão financiando isso? Com dívida. Muita dívida.

O UBS estima que a emissão global de dívida relacionada a tech e IA mais que dobrou para US$ 710 bilhões no ano passado e pode saltar para US$ 990 bilhões em 2026. O Morgan Stanley vai além e enxerga um buraco de financiamento de US$ 1,5 trilhão na construção da infraestrutura de IA — um gap que vai ser tapado com crédito, porque o caixa dessas empresas simplesmente não dá conta.

A Oracle abriu o baile vendendo US$ 25 bilhões em dívida de alta qualidade em fevereiro, com planos de levantar até US$ 50 bilhões no ano. A Alphabet respondeu com uma emissão de mais de US$ 30 bilhões em bonds, depois de já ter levantado US$ 25 bilhões em novembro.

A Amazon registrou uma prateleira mista (shelf registration) na semana passada. A Meta avisou, na cara dura, que pretende eventualmente "manter um saldo líquido positivo de dívida". Até a Tesla, que está expandindo infraestrutura, sinalizou que pode buscar financiamento externo.

Leu direito? As empresas mais valiosas do planeta estão empilhando dívida na casa das dezenas de bilhões. Cada uma.

O fantasma que ronda o corredor

Chris White, CEO da BondCliQ, chamou o aumento no mercado de dívida corporativa de "monumental". E aqui mora o problema que o Nassim Taleb adoraria dissecar: toda essa montanha de dívida está apoiada na premissa de que a demanda por computação de IA vai continuar crescendo exponencialmente.

E se não crescer?

E se startups queimadoras de caixa como OpenAI e Anthropic — avaliadas em centenas de bilhões sem gerar lucro consistente — baterem numa parede de crescimento e reduzirem seus gastos com infraestrutura? Quem vai pagar a conta das emissões bilionárias da Oracle e da Alphabet?

É o clássico risco de contágio. A mesma dinâmica de 2008, só que com datacenters no lugar de casas na Flórida.

O IPO que não vem

O Goldman Sachs projeta 120 IPOs este ano, levantando US$ 160 bilhões — contra 61 operações no ano passado. Bonito no papel. Mas Lise Buyer, da Class V Group, que assessora empresas pré-IPO, diz que a atividade no setor de tech está fraca. A volatilidade nos mercados públicos, especialmente em software com "vulnerabilidades relacionadas à IA", está espantando candidatos.

E o Elon Musk? Semana passada ele fundiu a SpaceX com a xAI, formando uma empresa que ele diz valer US$ 1,25 trilhão. Ross Gerber, da Gerber Kawasaki, acha que Musk nem vai abrir a SpaceX sozinha — vai enfiar tudo dentro da Tesla.

Ou seja: o IPO mais hypado do ano pode nem existir da forma que todo mundo imagina.

A pergunta que fica

Enquanto o mercado está de olho no brilho dos IPOs que não chegam, a verdadeira transformação — e o verdadeiro risco — está acontecendo no mercado de dívida. Quase um trilhão de dólares em emissões de tech em um único ano.

O Buffett costuma dizer que quando a maré baixa, a gente descobre quem estava nadando pelado. A maré da IA está subindo forte. Mas se ela virar — e marés sempre viram — porra, vai ter muita gente de alta qualidade creditícia passando vergonha.

Você está olhando pro lugar certo, ou está hipnotizado pelo circo dos IPOs?