Tem uma cena clássica em O Lobo de Wall Street em que o personagem do Matthew McConaughey explica pro Jordan Belfort novato que ninguém — ninguém — sabe se a ação vai subir ou descer. O que importa é a comissão. O jogo é outro.
Pois bem. O HSBC acabou de soltar os resultados anuais e o circo se repete.
Os números que a turma de terno adora citar
O maior banco da Europa reportou lucro antes de impostos de US$ 29,91 bilhões em 2025. Bateu a estimativa dos analistas, que era de US$ 28,86 bilhões. A receita saltou 4% ano contra ano, chegando a US$ 68,27 bilhões — também acima do consenso de US$ 67,36 bi.
Parece bonito, né?
Só que o lucro caiu 7,4% em relação ao ano anterior. Isso ninguém bota na manchete em letras garrafais.
O quarto trimestre foi turbinado por "itens não recorrentes favoráveis" ligados à venda de negócios. Traduzindo do economês: venderam uns pedaços da casa e contaram como se fosse o salário. As despesas operacionais subiram 8%, pra US$ 9,3 bilhões — reestruturação, investimento em tecnologia e bônus maiores pra quem performou. Pra quem não performou... bom, a conversa é outra.
A jogada do Hang Seng Bank
A notícia que realmente importa aqui não é o lucro trimestral maquiado. É o fato de que o HSBC completou a privatização do Hang Seng Bank em 26 de janeiro, tirando as ações da bolsa de Hong Kong.
O CEO Georges Elhedery — que fala bonito como todo executivo treinado — disse que a aquisição total é uma "oportunidade empolgante de crescer ambas as marcas". Que vão preservar a marca Hang Seng enquanto investem em fortalecer suas capacidades.
Tradução: compramos a loja do vizinho e vamos manter a placa na fachada, mas o dono agora somos nós.
A Kathy Chan, analista da Morningstar, jogou o balde de água fria que eu gosto: as sinergias de receita e custo "devem vir gradualmente no médio prazo". Ou seja, não espere mágica amanhã.
Corte de cabeças: a parte que ninguém quer falar
Aqui a coisa fica interessante — e cruel, como o mercado financeiro sempre é.
Elhedery disse à CNBC que o HSBC mira uma redução de 8% nos custos com folha de pagamento, mas que "não há metas específicas de corte de pessoal". Ao mesmo tempo, admitiu uma redução líquida de 15% nos cargos de managing director por "eliminação de duplicidades".
Porra, isso é corte de cabeça. Só que com linguagem corporativa perfumada.
A Bloomberg reportou que o banco vai dar bônus mínimos ou zero para alguns banqueiros como parte de um novo modelo de remuneração mais agressivo, inspirado nos concorrentes de Wall Street. A ideia é usar a rodada de bônus pra empurrar pra fora os underperformers — inclusive diretores executivos — em áreas como investment banking e gestão de patrimônio.
Nassim Taleb ia adorar essa parte. Pelo menos aqui tem um pouco de skin in the game: se você não entrega, rua. O problema é quando esses cortes são puramente políticos e os medalhões incompetentes ficam protegidos enquanto o cara que rala no operacional toma a facada.
E o mercado? Deu de ombros.
As ações do HSBC em Hong Kong caíram 0,46% no dia. Lucro acima das estimativas, receita acima das estimativas, e o mercado... bocejou.
Isso porque o mercado não é idiota. Ele olha pra frente. E o que vê é um bancão tentando atingir um retorno sobre patrimônio tangível (RoTE) de 17% até 2028, partindo de 13,3% em 2025. É ambicioso. É possível. Mas depende de execução, não de PowerPoint.
O HSBC é uma máquina. Mas máquinas enferrujam quando a gestão vira burocracia. E bancões europeus têm um histórico glorioso de prometer reestruturação e entregar... mais do mesmo.
Então, investidor: você compraria um banco que lucra US$ 30 bilhões mas está cortando gente, engolindo subsidiária e prometendo eficiência "no médio prazo"? Ou prefere ficar de fora assistindo o circo de camarote, esperando o preço da entrada cair de verdade?
Porque se tem uma coisa que eu aprendi nesse mercado, é que quando o CEO fala em "execução decisiva e rápida", geralmente a conta chega — só não sabemos ainda pra quem.