Sabe aquela cena do Batman Begins em que o Espantalho solta o gás do medo em Gotham e todo mundo entra em pânico? Pois é. Foi mais ou menos o que aconteceu com o setor de viagens na segunda-feira depois que os ataques do Irã transformaram o espaço aéreo do Oriente Médio numa zona proibida.
Mais de 11 mil voos cancelados. Onze mil. Leia de novo.
Dubai — um dos maiores hubs de aviação do planeta, casa da Emirates — fechou. Tel Aviv fechou. Aeroportos inteiros viraram estacionamentos de alumínio com asas. E o efeito dominó não ficou restrito ao Oriente Médio: voos que saíam do Brasil, das Filipinas, do Vietnã — todo mundo que precisava cruzar aquela região tomou no lombo.
O banho de sangue nas ações
O mercado reagiu como mercado reage: vendendo primeiro, fazendo perguntas depois.
- Norwegian Cruise Line despencou 10%. E não foi só por causa dos mísseis — a empresa já vinha apanhando. O fundo ativista Elliott Investment Management montou uma posição de mais de 10% na companhia e está pedindo mudanças. O novo CEO, John Chidsey, basicamente admitiu na call de resultados que a execução da empresa era uma merda: "Nossa estratégia é sólida, nossa execução e coordenação não têm sido, e uma cultura de accountability é essencial." Traduzindo do corporativês: "A gente sabia o que fazer, mas fez tudo errado."
- Carnival Corp caiu mais de 7%.
- Royal Caribbean perdeu 3%.
- American Airlines tombou 4%.
- United Airlines recuou quase 3% — a mais exposta ao mercado internacional entre as aéreas americanas. A rota para Tel Aviv, uma das mais lucrativas da companhia, foi suspensa.
- Delta cedeu 2%.
Enquanto isso, o petróleo subiu, porque claro que subiu. E adivinhe qual é o maior custo das companhias aéreas depois de salários? Combustível. Então além de perder receita com cancelamentos, as aéreas ainda veem o custo operacional subindo. Duplo soco no fígado.
O contexto que ninguém quer ver
Aqui vai o pedaço que a maioria dos sites de notícia trata como nota de rodapé, mas que importa pra caramba.
O setor de viagens internacionais vinha sendo o ponto brilhante — o "bright spot" — da indústria de turismo. Em janeiro, a demanda por viagens aéreas internacionais cresceu 5,9% em relação ao ano anterior, segundo a IATA. Enquanto isso, o mercado doméstico nos EUA estava praticamente estagnado.
Ou seja: o segmento que estava salvando o setor é justamente o mais vulnerável a esse tipo de choque geopolítico. A galinha dos ovos de ouro estava voando sobre uma zona de guerra.
Nassim Taleb chamaria isso de fragilidade. Quando todo o seu crescimento depende de rotas que passam pelo barril de pólvora do mundo, você não tem um negócio robusto — você tem uma aposta.
O que isso significa na prática
Para o investidor brasileiro que tem exposição a ações de turismo, cruzeiros ou aéreas americanas (e muita gente tem via ETFs ou BDRs), a lição é velha mas sempre ignorada: risco geopolítico não aparece na planilha de valuation até o dia que aparece.
Ninguém modela "e se o Irã fechar o espaço aéreo do Oriente Médio?" no DCF. Ninguém coloca isso na projeção de EBITDA. Mas acontece. E quando acontece, derrete tudo em questão de horas.
A Norwegian caindo 10% num dia é o tipo de coisa que faz o investidor de varejo entrar em pânico e vender no fundo. E é também o tipo de coisa que faz o Elliott Investment Management da vida sorrir, porque comprou barato justamente antecipando que a casa ia cair.
O jogo é assimétrico. Sempre foi.
E agora?
A pergunta que você deveria estar se fazendo não é "será que as ações vão se recuperar?" — porque provavelmente vão, quando o espaço aéreo reabrir.
A pergunta certa é: quanto do seu portfólio depende de coisas que podem ser destruídas por uma decisão política tomada a 10 mil quilômetros de distância, no meio de um deserto, por gente que não dá a mínima para o seu stop loss?
Pense nisso antes de dormir hoje.