Tem uma cena clássica em todo filme de guerra: o pelotão avança, conquista terreno, mas o sargento experiente olha pro horizonte e diz "não comemorem ainda". É exatamente isso que o Marvin Ellison, CEO da Lowe's, fez nessa quarta-feira.

A empresa soltou números do quarto trimestre fiscal que fizeram Wall Street engolir seco:

  • Lucro ajustado por ação: US$ 1,98 (esperavam US$ 1,94)
  • Receita: US$ 20,58 bilhões (esperavam US$ 20,34 bilhões)
  • Vendas mesmas lojas: +1,3% (esperavam míseros +0,2%)

Receita total saltou mais de 10% em relação ao ano anterior. Crescimento em 9 das 14 categorias de produto. Natal forte. E-commerce voando. Os profissionais de construção gastando mais em encanamento, janelas, portas.

Porra, no papel é champanhe e fogos de artifício.

Mas aí veio o balde de água fria

A guidance — aquela projeção que a empresa dá pro ano inteiro — veio abaixo do que os analistas queriam ouvir. A Lowe's disse esperar lucro ajustado entre US$ 12,25 e US$ 12,75 por ação. O consenso era US$ 12,95.

Resultado? As ações caíram mais de 4% no meio do pregão.

E é aqui que a coisa fica interessante.

Ellison não tentou dourar a pílula. Não fez aquele teatro corporativo de "estamos otimistas com as oportunidades à frente". O cara foi direto: "Estamos lidando com um mercado imobiliário que não tem vento a favor nenhum."

Inflação persistente. Incerteza econômica. Taxas de hipoteca lá em cima. E o tal do "efeito lock-in" — que é quando o proprietário olha pro financiamento de 3% que ele travou em 2021, olha pros 7% atuais, e decide que vai ficar onde está, obrigado.

O ciclo que ninguém quer admitir

Pensa comigo: o maior combustível pra indústria de reforma é quando alguém decide vender a casa. Porque aí o sujeito pinta a parede, arruma o quintal, troca a cerca, dá aquele tapa na cozinha. É o momento em que a Lowe's e a Home Depot engordam os caixas.

Só que ninguém tá vendendo. E ninguém tá comprando.

O próprio Home Depot, que soltou resultados um dia antes, contou a mesma história triste. É como se as duas maiores redes de material de construção dos EUA estivessem gritando em uníssono: o setor imobiliário americano está travado.

E enquanto isso, os gurus do Twitter — que nunca pregaram um prego na parede — ficam repetindo que "o consumidor americano é resiliente" e que "housing sempre volta". Volta, sim. A questão é quando e a que custo.

O que a Lowe's está fazendo de certo

Tem que dar o crédito onde ele é merecido. Enquanto o mercado está de lado, a Lowe's não ficou choramingando. A empresa:

  • Melhorou a experiência digital (e-commerce crescendo forte)
  • Expandiu opções de entrega flexível
  • Investiu pesado em serviços de instalação
  • Focou no público profissional (o cara que reforma pra viver, não o "faça você mesmo" de fim de semana)

Ellison basicamente disse: "O mercado vai ficar flat, mas nós vamos ganhar market share dentro desse flat." Isso é linguagem de quem sabe que a maré não vai subir tão cedo e está construindo o barco mais rápido.

A projeção de receita anual entre US$ 92 bi e US$ 94 bi representa crescimento de 7% a 9%. Pra um mercado supostamente parado, isso não é pouca coisa.

O recado que Wall Street não quer ouvir

O mercado derrubou a ação porque a guidance ficou abaixo do consenso. Clássico. O sujeito entrega resultado acima do esperado no trimestre, mas como ousou ser conservador na projeção futura, leva uma surra.

Sabe o que isso me lembra? Aquela frase do Buffett: "O mercado é uma máquina de votação no curto prazo e uma balança no longo prazo."

Ellison chamou sua projeção de "apropriadamente conservadora" por causa do "ambiente muito fluido e muito imprevisível" — leia-se: tarifas mudando toda semana e mercado imobiliário que parece estacionamento de shopping às 3 da manhã.

E honestamente? Prefiro um CEO que me dá a verdade crua a um que vende sonho e depois entrega pesadelo. Quem tem skin in the game sabe que conservadorismo na projeção não é fraqueza — é sobrevivência.

A pergunta que fica é outra: se nem a Lowe's, com resultado forte e gestão competente, consegue fazer Wall Street feliz num cenário desses, o que exatamente o mercado está precificando pra esse setor?

Porque ou os analistas estão vivendo num mundo paralelo onde as taxas de hipoteca vão despencar magicamente, ou alguém vai ter que acordar pra realidade de que o ciclo imobiliário americano está preso — e não tem Fed que desentale isso da noite pro dia.