Existe um momento na carreira de todo boxeador em que ele já apanhou tanto que um soco que derrubaria qualquer mortal vira só mais um round. A Nvidia chegou nesse ponto — só que do lado de quem dá a porrada.
A empresa reportou resultados do quarto trimestre fiscal na quarta-feira e, mais uma vez, fez o consenso de Wall Street parecer um bando de estagiário tentando adivinhar o placar do jogo. Lucro por ação de US$ 1,62 ajustado contra US$ 1,53 esperado. Receita de US$ 68,13 bilhões contra US$ 66,21 bilhões estimados. E o guidance? US$ 78 bilhões para o próximo trimestre, contra US$ 72,6 bilhões que os analistas projetavam.
Leia de novo: a empresa superou a expectativa de receita futura em mais de US$ 5 bilhões. Isso é quase o PIB anual de um país pequeno. E o que a ação fez? Subiu de leve no after-market e devolveu quase tudo.
Porra. Bem-vindo ao novo normal.
A máquina de imprimir dinheiro chamada Data Center
O segmento de data center — que é basicamente a Nvidia hoje — entregou US$ 62,3 bilhões em receita. Crescimento de 75% ano contra ano. Representando mais de 91% do faturamento total da empresa.
Quando mais de 90% da sua receita vem de um único segmento e esse segmento cresce 75% ao ano, você não é mais uma empresa de chips. Você é a infraestrutura da revolução de IA. É como ser a empresa que vendia picaretas durante a corrida do ouro — só que suas picaretas custam milhões de dólares e todo mundo precisa comprar.
O lucro líquido quase dobrou: US$ 43 bilhões contra US$ 22,1 bilhões no mesmo período do ano anterior. Para colocar em perspectiva, a Nvidia lucra em um trimestre mais do que a maioria das empresas do S&P 500 lucra em uma década inteira.
Os hyperscalers continuam jogando dinheiro no fogo
A própria Nvidia confirmou no comentário da CFO Colette Kress: os hyperscalers — Google, Amazon, Meta, Microsoft — continuam sendo a maior categoria de clientes, representando mais de 50% da receita de data center.
E aqui está o dado que deveria fazer qualquer investidor prestar atenção: o capex combinado dessas quatro gigantes pode se aproximar de US$ 700 bilhões este ano. Setecentos. Bilhões. De. Dólares. Sendo despejados em infraestrutura de IA.
Quem acha que essa história é bolha precisa responder uma pergunta simples: você acha que Tim Cook, Satya Nadella, Zuckerberg e Sundar Pichai estão jogando poker com fichas de US$ 700 bilhões sem ter cartas na mão? Esses caras têm skin in the game de verdade. Não são analistas de Twitter com avatar de lobo.
O detalhe que poucos viram: networking explodiu
Dentro do data center, a receita de networking — os componentes que conectam centenas de GPUs em sistemas massivos — saltou 263% ano contra ano, chegando a quase US$ 11 bilhões. Isso reflete a adoção pesada do NVLink e dos switches Ethernet Spectrum-X, com novos contratos gordos da Meta e companhia.
Traduzindo do economês: não basta ter o chip. Você precisa conectar esses chips entre si para que funcionem como um supercomputador. E a Nvidia está dominando também essa camada. É como se uma montadora vendesse o carro, o combustível e as estradas.
Gaming fica pra trás (e ninguém se importa)
A divisão de gaming — que um dia foi o coração da Nvidia — cresceu 47% ano contra ano, mas caiu 13% em relação ao trimestre anterior. Há rumores de que a empresa pode pular o lançamento de uma nova GPU gamer este ano. Motivo? Escassez de memória força a priorização dos processadores de IA.
O gaming virou o filho do meio. A família inteira agora gira em torno do primogênito chamado data center.
Vera Rubin: a próxima bala na agulha
As primeiras amostras do sistema de próxima geração Vera Rubin — sucessor do Grace Blackwell — já foram enviadas a clientes esta semana. A promessa é de 10x mais performance por watt. Num mundo onde data centers estão enfrentando restrições severas de energia, eficiência energética é o novo ouro.
E a Nvidia está diversificando sua cadeia de suprimentos para além da Ásia, trazendo produção para os EUA e América Latina. Geopolítica manda, e Jensen Huang não é bobo.
O que isso significa pra você
A Nvidia não deu guidance incluindo receita de data center da China. Leu certo: zero China na projeção e ainda assim entregou US$ 78 bilhões de guidance. O mercado chinês, se voltar, é upside puro.
A pergunta que fica é a mesma de sempre, mas agora com números ainda mais absurdos: até quando essa taxa de crescimento se sustenta? E o que acontece com o mercado inteiro quando — não se, quando — ela desacelerar?
Porque uma empresa que cresce 73% ao ano e o mercado mal reage... isso não é confiança.
Isso é expectativa de perfeição.
E perfeição, meu amigo, é a mãe de todas as armadilhas.