"Sinergias." Se existe uma palavra no vocabulário corporativo que deveria vir com um aviso de perigo, é essa. Toda vez que um CEO fala em "eliminar operações duplicadas", pode traduzir: gente vai pra rua.
E é exatamente isso que está acontecendo na Warner Bros. Discovery agora.
O negócio que ninguém pediu (exceto os acionistas)
Na quinta-feira, o conselho da WBD escolheu a oferta de aquisição da Paramount Skydance — $31 por ação — em vez dos $27,75 oferecidos pela Netflix. Matematicamente, faz sentido para quem tem papel na mão. Três dólares e vinte e cinco centavos a mais por ação não é pouca coisa.
Mas aqui vai o detalhe que o mercado adora ignorar: o preço por ação não paga o aluguel de quem vai perder o emprego.
A CNBC conversou anonimamente com 10 funcionários da WBD em diferentes cargos. Todos — todos os dez — expressaram algum nível de medo sobre demissões. E não é paranoia. A Paramount já botou na mesa um alvo de $6 bilhões em cortes de custos eliminando "operações duplicadas em back office, finanças, corporativo, jurídico, tecnologia, infraestrutura, et cetera."
Et cetera. Adorável. Quando o "et cetera" aparece na lista de cortes, é porque a lista é tão grande que nem cabe no slide do PowerPoint.
Netflix era o sonho. Paramount é o pesadelo pragmático.
Vários funcionários da WBD disseram à CNBC que preferiam ter sido comprados pela Netflix. E a lógica é cristalina.
Netflix e WBD têm pouca sobreposição operacional. Ted Sarandos, co-CEO da Netflix, repetiu como um mantra que deixaria o negócio da WBD intocado — mantendo o cinema teatral separado, o HBO Max como serviço independente de streaming, e nem sequer compraria os canais lineares de TV a cabo. Traduzindo: CNN, Turner Sports, canais Discovery — todo mundo manteria o emprego e seguiria como empresa pública independente.
A Paramount? É praticamente um espelho da WBD. Ambas fazem notícia, esporte, filme, streaming. Quando duas empresas fazem a mesma coisa e se fundem, o que acontece? Alguém me diga que não é óbvio.
É como casar dois restaurantes que servem o mesmo cardápio. Você não precisa de dois chefs, dois caixas e dois garçons. Alguém vai embora.
O fantasma da CNN e o dedo de Bari Weiss
Se o corte de pessoal genérico já assusta, o cenário na CNN é de terror psicológico nível Stanley Kubrick.
O Wall Street Journal reportou em dezembro que David Ellison, CEO da Paramount, prometeu ao presidente Donald Trump que faria mudanças drásticas na CNN caso ganhasse controle da rede. Bari Weiss, atualmente editora-chefe da CBS, poderia assumir a CNN sob seu guarda-chuva.
Três funcionários da CNN disseram à CNBC que há medo generalizado sobre mudanças radicais nos âncoras e no tom editorial da emissora.
Mark Thompson, que atualmente comanda a CNN, tentou acalmar os ânimos: "Não tirem conclusões precipitadas sobre o futuro até sabermos mais." A frase clássica de quem também não sabe o que vai acontecer.
Brian Stelter, repórter de mídia da própria CNN, lembrou que a rede é altamente lucrativa e que seria "tolice de qualquer dono colocar isso em risco." Concordo. Mas desde quando a tolice impediu algum executivo de fazer besteira?
O deal pode nem fechar — e aí é outra novela
David Zaslav, CEO da WBD, reconheceu numa reunião geral na sexta-feira que o negócio pode ser bloqueado por reguladores nos EUA e na Europa. O procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, já avisou: "isso não é negócio fechado."
Zaslav soltou uma frase reveladora num áudio vazado para o Business Insider: "Se o deal não fechar, recebemos $7 bilhões e voltamos ao trabalho."
Sete bilhões de multa rescisória. Porra. Isso dá quase um filme da Marvel por mês durante uma década. É o tipo de "plano B" que só existe no mundo de fusões bilionárias.
Cozinheiros demais na cozinha
No lado do entretenimento, o medo é outro: excesso de caciques. Jeff Shell (presidente da Paramount, ex-CEO da NBCUniversal), Cindy Holland (diretora de streaming), George Cheeks (presidente de TV, ex-co-CEO da Paramount) — todos acostumados a ser os mandachuvas. Joga o pessoal da WBD nessa panela e me diz quem vai mexer a colher.
Criatividade e inovação não sobrevivem a burocracia de ego. Pergunte a qualquer roteirista de Hollywood.
Enquanto Wall Street celebra o prêmio de $31 por ação, milhares de pessoas dentro da WBD estão atualizando o LinkedIn às escondidas. O mercado financeiro adora celebrar "criação de valor para o acionista." Mas quem paga a conta das sinergias são sempre os mesmos: os que não têm assento na sala do conselho.
A pergunta que fica: quando foi a última vez que uma megafusão de mídia realmente entregou o que prometeu — sem deixar um rastro de destruição no caminho?