Vou ser honesto com você.

Quando vi a notificação do Samsung Unpacked 2026 aparecer no meu feed, meu primeiro instinto foi ignorar. Porque sabe o que é um evento de lançamento de celular nos dias de hoje? É o mesmo circo de sempre. Luz fria. Executivo de terno impecável no palco. Slides bonitos. Palavras como "revolucionário", "inovador" e "experiência imersiva" — sendo repetidas até perderem qualquer significado que talvez um dia tenham tido.

É o Super Bowl do marketing vazio.

Mas aí eu parei e pensei: espera. A Samsung não é qualquer empresa. É uma das poucas corporações no planeta que tem skin in the game de verdade — fabrica chip, fabrica tela, fabrica memória, monta o aparelho, vende o aparelho. Enquanto a Apple terceiriza tudo para a Foxconn e finge que isso é "design californiano", a Samsung tem chão de fábrica, tem engenharia pesada, tem cicatriz de quem já perdeu bilhões com um Galaxy Note 7 explodindo literalmente na mão do consumidor.

Quem erra assim e sobrevive, aprendeu alguma coisa.


O mercado não está esperando por você, Samsung

O setor de smartphones globalmente está numa fria silenciosa. O crescimento empacou. O consumidor médio trocava de celular a cada 18 meses — hoje, espera três, quatro anos. Por quê? Porque a diferença entre um flagship de 2022 e um de 2025 é marginal. É incremental. É... chata.

Isso não é opinião de blogueiro. É o que os dados de shipment da IDC mostram ciclo após ciclo.

A Apple entendeu isso e migrou o jogo para serviços — App Store, iCloud, Apple TV+, Apple Pay. A receita de serviços da Maçã já supera a de hardware em margem. É o modelo de lâmina e barbeador na sua forma mais sofisticada. Você vende o hardware quase como isca e cobra pela recorrência.

A Samsung? Ainda está tentando convencer você de que a câmera com 200 megapixels e a tela que dobra no meio são o futuro.

Talvez sejam. Mas o mercado financeiro já precificou a dúvida há muito tempo.


IA como salva-vidas ou como cortina de fumaça?

O Unpacked 2026 veio carregado de promessas de inteligência artificial. Galaxy AI, integração com modelos de linguagem, assistente que "entende o contexto" da sua vida.

Onde já ouvi isso?

Todo mundo está embalando IA agora. É o novo blockchain. É o novo metaverso. É o novo NFT. Não que a tecnologia seja inútil — longe disso. Mas quando todo mundo usa a mesma palavra como muleta de marketing, você precisa ligar o detector de fumaça.

A pergunta certa não é "a Samsung tem IA no celular?" A pergunta certa é: essa IA resolve um problema real que o consumidor tem e que ele não conseguia resolver antes?

Se a resposta for sim, é negócio. Se a resposta for "fica legal na apresentação de PowerPoint", é circo.

Por ora, parece mais o segundo.


O que isso tem a ver com investimento?

Tudo, meu amigo.

A Samsung Electronics (005930.KS) é uma das maiores posições em fundos de mercados emergentes no mundo inteiro. Quando a empresa lança um produto novo, os analistas de Seul a São Paulo reescrevem suas projeções de receita, revisam múltiplos, ajustam preço-alvo.

E aí vem o ponto que Taleb repetiria com prazer: o analista que escreve o relatório não tem um centavo do próprio dinheiro nessa posição. Ele recebe salário fixo, bônus garantido, e vai dormir tranquilo independente de você ter comprado Samsung a ₩80.000 baseado na recomendação dele.

Skin in the game, gente. Sempre.

Se você está olhando para Samsung como tese de investimento — seja diretamente via BDR ou via ETFs de mercados emergentes — o lançamento do S26 é um dado, não é o dado. O que importa de verdade é a divisão de semicondutores, a recuperação do ciclo de memória DRAM e NAND, e a guerra fria tecnológica entre EUA e China que pode tanto beneficiar quanto destruir a cadeia de fornecimento da companhia coreana.

O celular bonito? É vitrine.

O chip que está dentro dele — e de metade dos servidores de IA do mundo — é o negócio.


Então antes de se emocionar com a câmera do Galaxy S26 ou com os novos Buds 4 que prometem cancelamento de ruído "revolucionário" (palavra proibida no meu dicionário), se pergunte uma coisa:

Você está comprando o produto ou está comprando a empresa?

São decisões completamente diferentes. E confundir as duas é o erro mais caro que um investidor de varejo comete — repetidamente, com alegria, geração após geração.

O circo vai continuar. A questão é se você está na plateia ou vendendo pipoca.