Deixa eu te contar uma coisa que o Walter White já sabia desde o primeiro episódio de Breaking Bad: quando alguém aparece com dinheiro fácil, a pergunta certa nunca é "quanto eu ganho?", mas sim "quem vai se foder no final?"
Trump voltou ao ringue com mais uma proposta que faz o povão aplaudir de pé: isentar de imposto de renda os benefícios da Seguridade Social (o equivalente americano do nosso INSS) para cerca de 54 milhões de aposentados. Parece lindo, né? O vovô e a vovó com mais dinheiro no bolso, menos governo comendo a aposentadoria suada.
Mas calma. Respira. Pensa.
O truque do mágico populista
Toda proposta fiscal populista funciona igual truque de mágico: você olha pra mão que brilha enquanto a outra mão enfia a mão no seu bolso.
Hoje, os impostos sobre benefícios da Seguridade Social americana geram algo entre US$ 45 bilhões e US$ 90 bilhões por ano em receita federal. Esse dinheiro não cai do céu — ele financia justamente o fundo que paga as aposentadorias. É uma cobra mordendo o próprio rabo, eu sei. Mas tirar essa receita sem substituir por nada é acelerar a falência do sistema.
O próprio Social Security Trust Fund já está projetado para ficar insolvente por volta de 2033-2035. Isso não é teoria conspiratória de maluco no YouTube. É projeção oficial do governo americano.
Então me diz: você corta a receita de um sistema que já está morrendo... e chama isso de quê? Generosidade? Eu chamo de gasolina no incêndio.
"Mas o aposentado merece pagar menos imposto!"
Merece. Concordo. O trabalhador que ralou a vida inteira merece cada centavo da sua aposentadoria sem ter que dividir com um governo inchado e incompetente.
Mas aqui entra o ponto que nenhum guru político vai te contar: a forma como você faz importa mais do que o que você faz.
Se você quer desonerar o aposentado, precisa cortar gasto em outro lugar. Precisa reformar o sistema. Precisa ter coragem de mexer no orçamento militar, nos subsídios corporativos, na burocracia federal que come trilhões por ano.
Só que isso não cabe num tweet. Não gera aplauso. Não vira manchete no Washington Post.
Sabe o que vira manchete? "Trump quer dar mais dinheiro para 54 milhões de aposentados." Pronto. Eleição comprada com promessa.
O padrão que se repete — e que Taleb explicaria em 30 segundos
Nassim Taleb tem um conceito que eu repito aqui até cansar: skin in the game. Quem propõe a medida não vai sofrer as consequências dela. Trump é bilionário. Os congressistas que vão votar têm planos de aposentadoria privados blindados. Os consultores de campanha vão ganhar seus bônus independente do resultado.
Quem vai pagar a conta? O trabalhador de 35 anos que está contribuindo hoje e vai descobrir daqui a 20 anos que o fundo secou.
É o mesmo filme. Sempre o mesmo filme. O político distribui o presente hoje e empurra a conta pra geração seguinte. É como aquele cara que paga o churrasco no cartão de crédito parcelado em 12x e acha que tá sendo generoso — generoso com o dinheiro dos outros.
O que isso significa pra quem investe
Se você tem qualquer exposição ao mercado americano — e a maioria de nós tem, mesmo que indiretamente —, presta atenção no seguinte:
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Promessas fiscais expansionistas sem corte de gasto = mais dívida pública. E mais dívida pública americana mexe com o dólar, com os treasuries, com tudo.
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O déficit americano já ultrapassou US$ 36 trilhões. Cada proposta dessas é mais lenha nessa fogueira.
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O mercado pode até subir no curto prazo com a euforia populista. Mas no longo prazo, a conta chega. Sempre chega.
Warren Buffett não vendeu metade da posição de ações da Berkshire por acaso. O velho de Omaha fareja a tempestade antes do vento mudar.
A pergunta que fica
Então antes de você compartilhar a manchete bonita no grupo da família com emoji de palmas, me responde uma coisa:
Se um cara te oferece um presente lindo embrulhado em papel dourado, mas a etiqueta do preço está no nome do seu filho e do seu neto — isso é presente ou é golpe?
Porra, pensa nisso.