Tem uma cena clássica em filmes de desastre: dois personagens caindo juntos tentam se agarrar um ao outro achando que isso vai parar a queda.
Spoiler: não para.
É mais ou menos isso que parece estar acontecendo quando a Warner Bros. Discovery sinaliza que uma proposta de US$ 31 por ação pela Paramount Global poderia ser mais vantajosa do que qualquer acordo que a Netflix viesse a oferecer.
Respira. Deixa eu te explicar o que está acontecendo aqui — e por que você deveria ser cético.
O Circo da Mídia Tradicional em Modo Pânico
A Paramount está mal. Isso não é segredo. A empresa carrega uma dívida absurda, perde assinantes no streaming, e seu modelo de negócio de TV a cabo está se desmanchando em câmera lenta como uma geleira no Equador.
A Netflix, por outro lado, já passou pela fase de quase-morte, se reinventou, e hoje lucra de verdade. Tem skin in the game de verdade — o tipo de coisa que Taleb diria que separa os adultos das crianças no mercado.
Então por que a Netflix entraria numa fusão com a Paramount? Por que comprar um passivo mal gerido quando você já ganhou a guerra do streaming?
Resposta: provavelmente não entraria. E provavelmente não vai.
A Warner Como "Cavaleiro Branco" — Ou Não
A Warner Bros. Discovery, comandada pelo David Zaslav — um cara que ficou famoso por cancelar filmes prontos pra abater prejuízo fiscal — agora aparece dizendo que sua oferta de US$ 31 por ação seria superior a qualquer coisa que a Netflix colocasse na mesa.
Vamos traduzir o economês aqui:
"Nossa proposta é melhor" = "Por favor, considerem a nossa oferta porque estamos tão apertados quanto vocês e precisamos de escala para não afundar sozinhos."
A Warner tem seus próprios problemas. Max (o serviço de streaming deles) ainda está tentando se firmar. A dívida da empresa pós-fusão com a Discovery ainda pesa como um bloco de concreto no pescoço. E a receita publicitária da TV tradicional continua derretendo.
Duas empresas com balanços problemáticos se fundindo não cria uma empresa saudável. Cria uma empresa maior com problemas maiores. Matemática simples.
O Que Graham Diria Sobre Isso
Benjamin Graham — o pai do value investing, mentor do Buffett — tinha um princípio básico: preço é o que você paga, valor é o que você leva.
US$ 31 por ação pela Paramount. Parece um número. Mas o que você está comprando de verdade?
- Uma biblioteca de conteúdo valiosa? Sim, tem isso.
- Uma marca histórica? Com certeza.
- Uma dívida pesada, uma equipe de gestão questionável e um negócio de TV linear em colapso estrutural? Também sim. Tudo junto no mesmo pacote.
O preço de uma ação não te diz nada sozinho. O contexto é tudo. E o contexto aqui grita: cuidado.
Hollywood Sempre Foi Assim
Não romantize. Hollywood sempre foi uma mistura de arte, ego, dívida e contabilidade criativa. Os estúdios sempre gastaram mais do que arrecadaram, apostaram em franquias e rezaram para que o próximo blockbuster pagasse as contas do anterior.
O streaming foi vendido como a salvação. "Vamos ser a próxima Netflix." Todos disseram isso. Disney+, Peacock, Paramount+, Max, Apple TV+...
Sabe quantos desses serviços são consistentemente lucrativos?
Um. A Netflix.
Os outros estão ou queimando caixa, ou dependendo de um conglomerado maior para sobreviver, ou — como no caso da Paramount — virando alvo de aquisição.
O mercado sempre cobre a fatura no final. Sempre.
O Que o Investidor Comum Deveria Fazer Com Isso?
Se você está olhando para ações de mídia tradicional achando que "está barato", tome cuidado com a armadilha do valor aparente.
Uma ação de empresa em declínio estrutural pode parecer barata em múltiplos de lucro histórico. Mas se o negócio está sistematicamente perdendo relevância — como toda TV a cabo está — o que parece barato hoje pode ser caro amanhã.
Isso tem nome no mercado: value trap. Você compra achando que é pechincha, e o "barato" continua ficando mais barato.
Kovner, um dos maiores traders macro da história, dizia que o maior erro é confundir o preço de uma coisa com o valor dela. E em mercados de empresas em transição disruptiva, esse erro custa caro.
Warner quer a Paramount. Paramount quer um comprador. O mercado está assistindo.
E enquanto os executivos de terno debatem sinergias e múltiplos de EBITDA em salas de reunião envidraçadas em Nova York, a pergunta real permanece sem resposta:
Quando duas empresas que erraram a virada digital tentam se fundir para sobreviver, quem exatamente está comprando o quê — e por quê alguém deveria acreditar que o resultado será diferente desta vez?
O circo tem nome no cartaz. Os palhaços já estão no picadeiro.