Tem um velho ditado nos mercados: "O mercado pode ficar irracional por mais tempo do que você consegue ficar solvente."
Keynes disse isso. Mas ele poderia muito bem estar descrevendo o que acontece toda vez que o mercado financeiro encontra uma nova tecnologia e decide transformá-la num filme de terror de segunda categoria.
A IA chegou. E com ela, chegou o que os gringos chamam de scare trade — o "comércio do susto". A lógica é simples e devastadora: "A IA vai destruir esse setor? Vende tudo agora e pergunta depois."
É o mercado funcionando no modo pânico. Não no modo análise.
O Coringa jogando cartas no escuro
Sabe aquela cena do Coringa atirando as cartas sem mirar? É exatamente isso que os algoritmos e fundos de momentum fazem quando uma narrativa de medo toma conta do mercado.
Não importa se a empresa X tem fundamentos sólidos, caixa robusto, clientes cativos e vantagem competitiva de dez anos. Se ela opera num setor que a IA supostamente vai destruir, ela vai levar porrada junto com todo mundo.
Isso não é análise fundamentalista. Isso é manada com terno.
E os setores que estão pagando esse preço agora?
1. Saúde e diagnósticos por imagem
Radiologistas dormem mal desde que ferramentas de IA começaram a ler tomografias e ressonâncias com precisão impressionante. O mercado antecipou o apocalipse dos médicos especialistas. Algumas empresas de equipamentos e serviços de diagnóstico viram suas ações despencarem.
O problema: a IA ainda precisa do médico para validar, contextualizar e assumir responsabilidade legal. Por enquanto. Mas o mercado não quer saber de "por enquanto". Quer precificar o pior cenário hoje.
2. Educação tradicional e plataformas de cursos
Empresas de cursinhos, faculdades privadas e plataformas de e-learning levaram um porradão. A lógica do mercado: "Se o ChatGPT ensina de graça, quem vai pagar professor?"
Simplificação absurda. Mas funcionou como narrativa o suficiente para destruir valor de mercado bilionário em meses. Duolingo, Chegg, universidades listadas — todas sentiram na pele o que é virar personagem secundário num roteiro que você não escreveu.
3. Call centers e BPO (terceirização de processos)
Esse aqui tem mais fundamento. Empresas que vivem de atendimento humano repetitivo estão genuinamente ameaçadas por agentes de IA conversacional. O mercado não errou o alvo — errou o timing e a intensidade.
A transição existe. Mas o mercado precificou como se fosse acontecer amanhã de manhã. Não vai. Regulação, integração de sistemas legados e resistência humana fazem esse processo ser lento, caro e cheio de tropeços. Mas as ações já caíram como se a transição tivesse acontecido ontem.
4. Publicidade digital de médio porte
Agências e ferramentas de criação de conteúdo para publicidade levaram um susto duplo: a IA cria copy, cria arte, cria vídeo. O que sobra pra elas?
Muito, na verdade. Estratégia, relacionamento, inteligência de negócio, curadoria. Mas o mercado não leu esse parágrafo. Vendeu primeiro.
5. Jurídico e legaltech
Softwares de pesquisa jurídica, redação de contratos, due diligence — tudo isso está sendo devorado por LLMs especializados. Empresas como a LexisNexis sentiram a pressão. Startups de legaltech viram suas valuations despencarem antes mesmo de qualquer cliente cancelar assinatura de verdade.
O que Taleb diria sobre tudo isso?
Nassim Taleb tem um conceito que se aplica perfeitamente aqui: fragilidade narrativa. Quando o mercado opera baseado em história — e não em dados — ele cria fragilidade sistêmica. Todo mundo foge da mesma saída ao mesmo tempo.
E quem paga a conta? O investidor de varejo que entrou na onda da narrativa, comprou na alta quando o setor ainda era "o futuro", e agora segura o mico enquanto os fundos grandes já reposicionaram para o próximo trade.
Skin in the game? Os analistas de terno que disseram "vende tudo de saúde, a IA vai dominar o diagnóstico" — eles perderam alguma coisa? Ou só mudaram a narrativa no próximo relatório?
A pergunta que ninguém está fazendo
Se o mercado está precificando a destruição de cinco setores simultaneamente pela IA — quem está comprando o outro lado desse trade?
Os mesmos fundos que estão vendendo os setores "destruídos" estão comprando Nvidia, Microsoft, Google e OpenAI adjacentes. Eles não acreditam no apocalipse. Eles estão usando o apocalipse como narrativa pra mover preço.
Você é o personagem do filme de terror que entra no porão escuro — ou é o roteirista que já sabe o final?
Pense nisso antes de tomar a próxima decisão baseada em manchete.